Copio a seguir, na integra, entrevista dada pelo ex-diretor do Banco Central e Economista-chefe do Itaú, Ilan Goldfajn, à Folha.

O ex-diretor aborda vários temas interessantes, e que já discutimos aqui n’O Economistinha. Para quem foi educado em economês, o texto está bem acessível e claro, e exatamente por isto quero que todos vocês leiam e vejam se conseguem compreender as associações feitas por Goldfajn e sua linha de raciocínio. Qualquer dúvida, perguntem-me nos comentários! 🙂

O BC está baixando juros mesmo com a expectativa de que os preços voltarão a subir em 2013. Acha que estão desafiando a inflação?
Ilan Goldfajn — O governo tem como objetivo reacelerar a economia de um período mais fraco, que foi o ano passado e o começo deste ano. A inflação está caindo, e no primeiro trimestre ela foi relativamente benigna.

A inflação pode voltar?
É possível que, com a recuperação, a inflação pare de cair e até suba um pouco. Não acredito que chegue a 4,5% [centro da meta do governo] esse ano, mas será menor do que no ano passado.

Faz diferença uma inflação de 4,5% ou de 6,5%?
Quanto menor a taxa de inflação, melhor. Assim, a taxa de juros pode ser menor. Passamos pelo esforço de sair da hiperinflação, depois da inflação mais alta. Depois, superamos os sustos inflacionários, como em 2002 quando a inflação foi a 12%. Todos esses esforços foram bem-vindos. Inclusive o esforço do ano passado, quando a inflação chegou a 7% e a trouxemos para baixo.

Mesmo que signifique mais sacrifício?
No longo prazo não há essa troca. Ao contrário, uma inflação menor é bom para o crescimento. Como aconteceu no Brasil. Com mais estabilidade, as pessoas conseguem planejar o futuro, investem mais, a distribuição de renda é melhor, porque quem se prejudica mais com a inflação maior é quem tem menos proteção.

O início do ano está fraco?
O ano começou mais fraco, ainda está fraco. Há sinais de recuperação, mas a indústria começou fraca. Mesmo que as vendas estejam boas, a produção é menor para vender o que está em estoque.

Está pior do que esperava?
A retomada está indo relativamente bem. O importante para quem produz é vender. E o problema do Brasil não é falta de demanda, por isso, a oferta vai se recuperar.
Esperamos que no segundo semestre haja um crescimento forte no Brasil, com uma expansão de 1,7%, 1,8% [ante os trimestres imediatamente anteriores], o que resultará num crescimento em 2013 acima de 5%.

Críticos dizem que o governo está abandonando o sistema de metas de inflação, instalado na época em que o senhor estava no BC.
Tem coisas que estão mudando. Hoje, existe a visão de que medidas macroprudenciais [que restringem o crédito] fazem parte do instrumental do governo. Não só no Brasil, noutros países também. No passado, esses instrumentos eram menos bem vistos. Já outras coisas não são mudanças. Se você está numa economia que desacelerou muito, pode alongar o prazo de convergência [da inflação] para a meta sem que isso signifique abandono.

O atual BC é mais heterodoxo?
Quando estava no BC nunca gostei de ser classificado. Prefiro discutir como vai a atividade, a inflação. Fui adjetivado várias vezes: neoliberal, ortodoxo…

Incomodava ser chamado de neoliberal?
Nem um pouco. Mas é um rótulo e às vezes as pessoas não saem do rótulo.

Este BC já foi acusado de ter problemas de comunicação e ser pouco transparente. O que acha?
Se há uma coisa de que não se pode reclamar é da transparência. Essa ata é muito transparente sobre onde o BC pretende chegar.

É uma mudança de estilo?
Sim, não me lembro desse estilo no passado. O benefício de ser transparente é que não há dúvidas e não há muitos erros de leitura. Sabe-se que o BC quer chegar numa taxa de juros pouco acima do mínimo histórico. O mínimo é 8,75%; então deve querer chegar perto de 9%.

Por que em alguns momentos os bancos centrais são menos transparentes com isso?
Porque eles se dão um certo grau de liberdade, de flexibilidade de ir analisando ao longo do tempo até se decidir. Sendo mais transparente, o BC se compromete mais. Voltas e mudanças têm de ser explicadas com mais intensidade. Pretendia chegar a 9% e não chegou. Por quê? Pretendia chegar a 9% e resolveu estimular mais? Por quê? Pela minha experiência, sei que nem sempre quando você muda de curso você é bem entendido.

É justificável toda a ansiedade a cada reunião do Copom?
Na medida em que o país vai se normalizando, essas decisões ficam menos importantes. Mas nunca deixam de ser importantes, veja o Fed [Banco Central dos EUA] e o Banco Central europeu. A ansiedade um pouco além da conta é típica de países que estão na convergência de um juro alto para padrões internacionais. Todos estamos ansiosos por uma taxa mais baixa.

Mas se justifica?
Temos vários problemas econômicos que são tão ou mais importantes do que a taxa básica, como a educação, a falta de mão de obra qualificada, a reforma da previdência (o fundo de pensão dos servidores, que é importante) e melhorar a infraestrutura para dar competitividade da indústria.

Por que os juros no Brasil são tão altos?
Temos uma necessidade de recursos maior do que dispomos. A nossa poupança é baixa e nossa vontade de consumir, produzir e exportar é grande. Não cabe tudo no mesmo PIB [Produto Interno Bruto, o que o país produz em um determinado período]. Com isso, ocorre pressão sobre os juros e o câmbio. Porque se você tem juro alto, consome menos ou investe menos. Se tem câmbio mais apreciado, exporta menos. É preciso encontrar formas diferentes de agir e a forma de fazer isso é elevar a poupança pública.

O governo parece preocupado em reduzir gastos?
Vimos com bons olhos que há um esforço para reduzir despesas com pessoal e aumentar os investimentos. O fundo de pensão dos servidores é outro bom exemplo. Não resolve nada neste ano mas se você fizer várias coisas pequenas desse tipo, mesmo que seja para o futuro, lidamos com o X da questão.

No ano passado crescemos 2,7%, depois de 7,5% em 2010. Qual é a realidade do Brasil, crescer 7% ou 3%?
Olhando os últimos anos e olhando para frente, um crescimento em torno de 4% parece razoável para o Brasil. Não que a gente não queira crescer mais. Mas é a média do que temos crescido, olhando a disponibilidade de mão de obra qualificada, capital e investimento.

Crescer 4% em vez de 3% parece uma diferença pequena.
Ao longo dos anos, é uma grande diferença. Significa que todo o ano você está produzindo mais e que, portanto, as pessoas podem ter salários maiores e podem se apropriar mais dos recursos que estão produzindo. As pessoas poderão ter um padrão de vida melhor.

Desonerar a folha de pagamentos e levantar barreiras aos importados será suficiente para dar competitividade à indústria?
Vai mitigar, não vai resolver. Isso é resultado de um processo. Os fluxos de capital estão chegando, o Brasil tem um deficit de conta corrente, está querendo investir mais do que poupa, por isso, acho que teremos uma moeda mais apreciada.

Há risco nessa estratégia?
Temos que ter cuidado para não tornar nossa economia insulada do resto do mundo. Tem formas de atuar com uma agenda positiva. A desoneração da folha é positiva. É preciso também melhorar o sistema tributário [não estou nem falando da carga, mas da complexidade], temos que simplificar a vida das empresas. Essas pequenas coisas sozinhas não são um ‘tchan’, mas somadas têm efeito positivo.

Há queixas de que o governo está intervindo com muita frequência no câmbio, acha que há intervenções demais?
O governo está dizendo explicitamente que está atuando para evitar o que chama de guerra cambial ou tsunami. São medidas bem-sucedidas mas que geram incentivo a buscar outras formas de entrada, o que faz com que o efeito seja de curto prazo. No longo prazo você tem que mudar estruturalmente. No nosso caso, aumentando a poupança.

O governo não quer que exportadoras e bancos tragam recursos para o país…
O que é justo dizer é que o dinheiro de curto prazo não está sendo bem-vindo. Se você capta com prazo de 10 anos, não paga IOF.

Isso é ruim?
O Brasil precisa financiar sua conta corrente, temos um déficit de 2% este ano e acho que ele pode subir até 3% e a gente tem um financiamento expressivo via investimento direto. Então a gente precisa de algum dinheiro.

O governo parece ansioso em retomar o crescimento.
Está preocupado com a desaceleração, sim. A nossa visão é que a retomada está vindo.

Mas se a retomada está vindo, por que a preocupação?
Nós temos a confiança de que a recuperação virá. Talvez o governo esteja menos certo dessa recuperação e quer se garantir.

Como o ruído político de agora, a rusga da presidente com a base aliada, afeta a economia?
A economia sempre anda de mãos dadas com a política. Estamos falando muito nessa capacidade do governo de realocar recursos para investimentos. É preciso uma base política adequada para fazer isso. Porque você pode ter interesses diferentes sobre a alocação dos gastos, você pode ter uma parte da base de apoio do governo que quer gastar noutra coisa. O governo com apoio tem mais facilidade de liderar e fazer o que precisa ser feito.

Há sinais de que a mudança na poupança ficará para depois das eleições. Dá para esperar?
A poupança tem que se mudada em algum momento. Se a gente tem o objetivo de fazer os juros convergirem para os padrões internacionais, vai ter que mudar. Mudar agora ou depois depende de onde vão chegar os juros. Chegando a 9%, dá um senso de urgência menor. Se fosse em direção a 8%, o senso de urgência seria outro. O ponto de corte, nas estimativas, é algo entre 8% e 8,5%.

 

Excelente entrevista de Goldfajn à Folha

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