O papel desastroso do governo sobre a economia brasileira


Recentemente, o professor da Harvard Business School Michael Porter, um dos maiores gurus em competitividade do planeta, deu uma excelente entrevista à revista Exame, que reproduzimos na íntegra para vocês abaixo. Antes, vou ressaltar alguns pontos importantes, dos quais vários já discutimos previamente aqui n’O Economistinha.

— Da falácia do crescimento econômico: “a prosperidade que se vê muitas vezes não decorre do ganho de produtividade.”

Nos últimos anos, o Brasil observou um crescimento econômico forte. Com a distribuição econômica, a qualidade de vida de boa parte da população também subiu. Isto é excelente, porém não é sustentável ao longo do tempo, porque ocorreu basicamente com o aumento da exploração de recursos naturais, ou com o crescimento de setores de baixa complexidade, como a agropecuária. O Brasil não se tornou mais competitivo, ao contrário: a presença do Estado na economia aumentou, engessando-a ainda mais.

— Da presença excessiva do governo na economia: “Em países como o Brasil, o papel do governo é, francamente, um desastre. O governo é muito burocrático. Os impostos são complexos e pesados. O Brasil tem muitos recursos, gente inovadora. Mas o peso do setor público atrasa o crescimento do país.”

Não preciso dizer mais nada, né?

— Brasil: macro e microeconomicamente: “O governo conquistou estabilidade macroeconômica, mas em termos microeconômicos não avançou muita coisa. O Brasil terá de se transformar nos próximos 20 anos. Ou então ficará para trás.”

Novamente, a questão das burocracias, do excesso de impostos, da falta de infraestrutura, de pessoal especializado impactam diretamente a produtividade do país, que está fadado ao fracasso se não passar por reformas URGENTES.

— Sobre o protecionismo crescente: “protegidos, os negócios locais não melhoram”

Os americanos são fortemente contra o protecionismo, por diversos motivos. Mas deste argumento, não temos como discordar.

— O segredo para recuperar a competitividade: “recuperar fundamentos como infraestrutura e educação básica”

Detalhe: neste ponto, Porter estava falando dos Estados Unidos. Sim, mesmo a maior potência global precisa se recuperar em aspectos básicos, como infraestrutura e educação básica. Do Brasil, então, nem se fale. Historicamente, políticos e elites tentaram evitar que a população em geral tivesse acesso a educação. Isto gera um atraso sem fim. Atualmente, muitas escolas públicas brasileiras estão destruídas, com professores mal preparados e sem nenhuma estrutura. Formam-se gerações e gerações de profissionais sem nenhuma capacitação.

Da infraestrutura, nem é preciso falar muito. Portos sucateados, estradas esburacadas, linhas de trens inexistentes, sistema de comunicação pré-histórico, transporte urbano caótico, focado no transporte individual, falta de saneamento, etc etc etc. Poderíamos ficar aqui até amanhã relatando os problemas. Como estas obras não trazem mais votos, o interesse político é baixo. Vale mais a pena gastar bilhões em estádios de futebol que, depois de quatro jogos, ficarão às moscas, obviamente. Até quando?

EXAME – Diante da crise persistente que abate países ricos, pode-se dizer que a definição de competitividade mudou no mundo atual?

Michael Porter – Competitividade é um conceito atemporal e se apoia em duas condições básicas, no caso dos países. Em primeiro lugar, as empresas locais têm de conseguir competir em mercados globais. Ao mesmo tempo, o padrão de vida de seus habitantes tem de melhorar. Sem nenhuma dessas duas­ condições, o país não é competitivo. E somente o ganho de produtividade permite conciliá-las.

EXAME – Por que os países ricos perderam competitividade?

Michael Porter – Os mercados emergentes cresceram rapidamente e os países ricos não seguiram o mesmo ritmo de progresso. A globalização começou na década de 70 e os países ricos se deram bem no começo porque as nações emergentes eram ineficientes.

Ao mesmo tempo que as nações emergentes melhoraram, os países mais ricos passaram a enfrentar o envelhecimento da população — e o consequente aperto no orçamento, sobretudo nas áreas de saúde e previdência. A combinação dos dois fatores é um fenômeno relativamente novo no cenário mundial.

EXAME – Em sua opinião, os países emergentes estão aproveitando a oportunidade? 

Michael Porter – Economias emergentes, como o Brasil e alguns países da Ásia, beneficiaram-se de fatores como a explosão dos recursos naturais. Isso faz parecer que um país é próspero. A verdade é que a prosperidade que se vê muitas vezes não decorre do ganho de produtividade. Os países emergentes têm agora uma grande oportunidade.

É mais fácil melhorar quando você é fraco, copiando os líderes. O envelhecimento  da população ainda não é um problema crítico. Mas a prosperidade não será automática e linear nos próximos anos. Não sei se a era de ouro vai durar mais três ou dez anos. Desafios vão surgir. Já temos um ajuste de salários. A diferença de salários entre trabalhadores indianos ou chineses e americanos já diminuiu.

EXAME – O senhor vê uma estratégia por trás do crescimento em países emergentes?

Michael Porter – Alguns países melhoraram fundamentos básicos, como educação, saúde e infraestrutura. Abriram seus mercados para investidores estrangeiros e criaram regras mais estáveis. A China, por exemplo, segue uma estratégia clara, mas que não coincide com o interesse de seus cidadãos.

Abusa de baixos salários e da intervenção excessiva do governo. Algumas dessas políticas funcionam no curto prazo, mas vão custar caro com o tempo. Esse cenário não vai permitir que a economia chinesa se torne vibrante no futuro.

EXAME – De que maneira essa postura pode ser um problema no futuro?

Michael Porter – Salários baixos são uma fonte temporária de competitividade. Salários baixos não constroem países competitivos. Esses países não deveriam se preocupar se os salários estão se tornando mais altos — eles deveriam deixá-los subir, porque isso vai criar prosperidade.

A China distorceu elementos da competitividade e criou um jogo de ganha-perde com o resto do mundo. Mas não será capaz de crescer no futuro com esse modelo. Sem proteção de propriedade intelectual, por exemplo, não existe inovação, e isso vai ser um problema.

EXAME – Quais são os outros fatores que podem atrapalhar o crescimento de países emergentes?

Michael Porter – Em países como o Brasil, o papel do governo é, francamente, um desastre. O governo é muito burocrático. Os impostos são complexos e pesados. O Brasil tem muitos recursos, gente inovadora. Mas o peso do setor público atrasa o crescimento do país.

O governo conquistou estabilidade macroeconômica, mas em termos microeconômicos não avançou muita coisa. O Brasil terá de se transformar nos próximos 20 anos. Ou então ficará para trás. Não é um problema para os próximos dois ou três anos. Mas será um problema daqui a dez ou 15 anos.

EXAME – Qual é o melhor exemplo de país que tenha superado o excesso de burocracia?

Michael Porter – É difícil achar uma referência comparável ao Brasil, pelas suas dimensões. A Indonésia se livrou de problemas ao simplificar o governo. A Colômbia também fez rápido progresso no ambiente de negócios quando o governo passou a atrapalhar menos.

EXAME – Nos últimos anos, a indústria perdeu peso no PIB brasileiro. É possível um país ter produtividade sem uma indústria forte?

Michael Porter – Negócios bem-sucedidos são a base de uma economia próspera. A indústria cria empregos, paga impostos e faz a economia crescer. Governos não podem criar riqueza. Negócios criam riqueza. E a maneira correta de garantir que isso aconteça não é com monopólio ou distorções.

EXAME – Alguns países, inclusive o Brasil, têm recorrido a barreiras protecionistas para frear a concorrência estrangeira. O que o senhor acha dessa estratégia? 

Michael Porter – É algo tentador, mas quase nunca funciona. Uma vez que você começa a fazer isso é difícil parar. E, protegidos, os negócios locais não melhoram. Um dos casos raros em que o protecionismo resultou em melhora é o da Coreia, onde as companhias locais promovem um ambiente competitivo suficiente para gerar produtividade. No Japão, há evidência de maior sucesso em áreas não protegidas. E o desempenho de setores protegidos foi um fiasco.

EXAME – A competição global pode se tornar um jogo em que todos ganham?

Michael Porter – A competitividade não é necessariamente um jogo de soma zero, em que um país ganha se o outro perde. A convivência sem barreiras pode ser produtiva para todos. Hoje, todo país precisa ter multinacionais — tanto empresas de fora em seu território quanto empresas locais com presença internacional.

Se você entende que produtividade é algo que define a competitividade, então você vai querer multinacionais de classe mundial em seu território. Essa é uma razão pela qual o protecionismo é uma ideia morta atualmente.

EXAME – Ainda estamos distantes de uma recuperação da crise?

Michael Porter – Vivemos a mais lenta recuperação de uma crise na história americana. Num le­vantamento que fizemos na universidade, descobrimos que o declínio da competitividade americana começou no fim dos anos 90. Ainda temos uma massa de empreendedores fenomenal e centros tecnológicos de ponta.

É preciso, no entanto, recuperar fundamentos como infraestrutura e educação bá­si­ca. Há um grande caminho para as empresas americanas no que se refere também ao ganho de produtividade. Uma crise raramente decorre de forças impossíveis de conter. Quase sempre resulta de um conjunto de decisões. É uma questão de fazer as escolhas certas.

 

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