O Brasil vive uma crise aérea absurda, e só o governo não vê


Caos aéreo não é de hoje: capa da revista Veja já apontava para o problema na década de 1970

Entre em qualquer aeroporto de grande porte do país e você ouvirá por todos os lados usuários comentando: “Imagina na copa…” Mas o Brasil já vive uma crise aérea hoje. Não é preciso ter habilidades psíquicas para perceber isto.

Faltam investimentos no setor, e a possibilidade de intervenção privada é bastante limitada. Para vocês terem ideia, o mais novo aeroporto de grande porte do Brasil foi inaugurado há mais de dez anos (em Palmas, no Tocantins, em 2001), e os terminais existentes são pequenos demais para a demanda existente.

Se em horários normais a movimentação já é intensa, em saídas ou chegadas de feriados ela se torna caótica. Fui a Santiago, no Chile e pude comparar a situação brasileira com a chilena. Embarquei no sábado sem maiores transtornos, ainda que a movimentação no freeshop do aeroporto de Guarulhos se assemelhasse a dos shoppings em dezembro. As filas para despacho de bagagens também eram longínquas, e infelizmente já começamos a nos acostumar a isto.

No retorno, o drama foi ainda maior. Por precisar retirar as bagagens para passar pela alfândega, enfrentei duas lentidões: a da retirada da bagagem e a fila de despacho (ainda que especial para passageiros em transferência doméstica).

Desembarcar via fingers (e não via escadas e ônibus) é um luxo que poucos sortudos conseguem com frequência, visto que o aeroporto está operando muito acima da sua capacidade. E isto não é exclusividade dos aeroportos de São Paulo: Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, BH, Salvador… Em praticamente todas as grandes cidades brasileiras, os aeroportos estão constantemente superlotados, sem oferecer conforto algum a seus usuários.

Há pouco mais de um ano, a revista Flight International destacou, em um artigo sobre a aviação brasileira, a situação dos aeroportos brasileiros: dos 137 em que há operação comercial, 35 sequer possuem pistas pavimentadas, e apenas CINCO possuem instrumentos modernos e adequados. É assustador.

Aeroporto de Congonhas, em SP, vive o caos na última sexta-feira

Quanto aos atrasos, nem preciso me prolongar: a novela é antiga e conhecida de todos. Na última sexta-feira, quase metade dos voos programados operavam com atraso em Congonhas, por exemplo. Dizem que o apagão aéreo acabou, mas eu não reconheço isto. Ele pode ter sido disfarçado ou dissimulado, mas está bem presente.

Outros problemas já são pouco comentados, de tão corriqueiros que viraram: constantes mudanças de portão de embarque, desorganização, preços abusivos de produtos alimentícios, poluição sonora com o desespero de funcionários despreparados… ontem, passei pelo constrangimento de observar dois embarques sendo realizados simultaneamente NO MESMO portão de embarque, e atendentes se desdobrando para evitar um incidente digno de “Esqueceram de mim 2”, enviando passageiros do voo a Salvador para Porto Alegre (ou vice-versa).

As obras previstas (que apenas ocorrem para que o Brasil não passe vergonha na Copa do Mundo, e não por uma gestão estratégica preocupada com o desenvolvimento e o planejamento) são simplesmente paliativas, e de pouca monta. Expansão de pistas, por exemplo: aumenta a capacidade de tráfego, mas não melhora em nada a qualidade do serviço.

Aeroporto de Santiago, que é controlado pela iniciativa privada em regime de concessão

 

Enquanto isto, vi uma realidade contrastante no aeroporto Arturo Merino Benitez, em Santiago. Entregue há 14 anos para a iniciativa privada (em um sistema semelhante às privatizações realizadas no Brasil em três aeroportos neste ano), o aeroporto foi reformado e ampliado algumas vezes nos últimos anos. Ele recebe muito bem seus usuários, com uma quantidade incrível de lojas, restaurantes, bares e até unidades de redes internacionais, como Starbucks e Dunkin’ Dunuts, cobrando os mesmos preços que nas ruas da cidade.

 

Quando teremos conforto para viajar no Brasil, e não apenas promessas e inaugurações fictícias? Por que não se constroem novos aeroportos no Brasil, dada a demanda latente por transporte aéreo?

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2 pensamentos sobre “O Brasil vive uma crise aérea absurda, e só o governo não vê

  1. Breno Godoy disse:

    Francis querido, neste ponto sou obrigado a concordar com os militares: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Ja cansei de amar e lutar, agora só quero abandoná-lo. Daqui a 100 anos, quem sabe.

    • franciskinder disse:

      Já conversamos algumas vezes sobre isso, Breno, e eu ainda acredito que é possível fazer a diferença.
      Se conformar com a situação atual não é uma hipótese, ao menos não para mim.
      Investimentos corretos, e não movidos por interesses privados, e um grande esforço para que conceitos como coletividade e respeito sejam instaurados são primordiais, e podem fazer a diferença.

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