A esquerda sobe ao poder na França, mas… o que muda?


Neste último domingo, o candidato socialista à presidência da França, François Hollande, foi eleito o mais novo líder da 5a maior economia do globo. Em uma disputa apertada (até o fechamento desta “edição/post”, as contagens ainda não haviam sido concluídas), a esquerda limou do poder o candidato à reeleição, Nicolas Sarkozy. Esta foi apenas a segunda vez na quinta república que um candidato a reeleição não conseguiu o feito (o anterior foi Valery Giscard; não considerei a tentativa de Alain Poher que foi candidato após a presidência interina, que durou 3 meses em 1969).

Mas vocês devem querer saber: O que muda com isso?

Povo francês lota as ruas de Paris. (foto por Marcel Badan)

Antes de responder a essa pergunta, vamos dar uma olhada quem é François Hollande:

– Primeiro-secretário do partido socialista por doze anos, ao qual se juntou em aos 25 anos. Atualmente, tem 58.

– Foi escolhido candidato ao ganhar as primárias do partido, após o escândalo sexual do então presidente do FMI, Strauss-Kahn, favorito à eleição naquele momento.

– Entre os pontos de seu programa estão a criação de uma agência europeia para regulamentar o sistema financeiro, a redução do uso da energia nuclear de 75% para 50% na produção energética nacional, a construção de 500 mil moradias por ano e a regularização de imigrantes ilegais com base em critérios objetivos (emprego, moradia e tempo de residência na França).*

Ao contrário da revista britânica The Economist, acho pouco provável que a eleição de Hollande fará um grande estrago às economias francesa e europeia. Antes de opinar, confiram alguns trechos do ponto de vista da TE:

With a Socialist president, France would get one big thing right. Mr Hollande opposes the harsh German-enforced fiscal tightening which is strangling the euro zone’s chances of recovery. But he is doing this for the wrong reasons—and he looks likely to get so much else wrong that the prosperity of France (and the euro zone) would be at risk.

France desperately needs reform. Public debt is high and rising, the government has not run a surplus in over 35 years, the banks are undercapitalised, unemployment is persistent and corrosive and, at 56% of GDP, the French state is the biggest of any euro country.

Mr Hollande’s programme seems a very poor answer to all this—especially given that France’s neighbours have been undergoing genuine reforms. He talks a lot about social justice, but barely at all about the need to create wealth. Although he pledges to cut the budget deficit, he plans to do so by raising taxes, not cutting spending. Mr Hollande has promised to hire 60,000 new teachers. By his own calculations, his proposals would splurge an extra €20 billion over five years. The state would grow even bigger.

Optimists retort that compared with the French Socialist Party, Mr Hollande is a moderate who worked with both François Mitterrand, the only previous French Socialist president in the Fifth Republic, and Jacques Delors, Mitterrand’s finance minister before he became president of the European Commission. He led the party during the 1997-2002 premiership of Lionel Jospin, who was often more reformist than the Gaullist president, Jacques Chirac. They dismiss as symbolic Mr Hollande’s flashy promises to impose a 75% top income-tax rate and to reverse Mr Sarkozy’s rise in the pension age from 60 to 62, arguing that the 75% would affect almost nobody and the pension rollback would benefit very few. They see a pragmatist who will be corralled into good behaviour by Germany and by investors worried about France’s creditworthiness.

If so, no one would be happier than this newspaper. But it seems very optimistic to presume that somehow, despite what he has said, despite even what he intends, Mr Hollande will end up doing the right thing. Mr Hollande evinces a deep anti-business attitude. He will also be hamstrung by his own unreformed Socialist Party and steered by an electorate that has not yet heard the case for reform, least of all from him. Nothing in the past few months, or in his long career as a party fixer, suggests that Mr Hollande is brave enough to rip up his manifesto and change France (see article). And France is in a much more fragile state than when Mitterand conducted his Socialist experiment in 1981-83. This time the response of the markets could be brutal—and hurt France’s neighbours too.

 

Não acho que Hollande seja tão extremista quanto a The Economist coloca, ainda que a revista tenha suas ressalvas. Mas mesmo que fosse, não acho que ele teria liberdade para isto.

Ao contrário do que os britânicos temem, a França não se desalinhará totalmente da Alemanha devido a esta vitória. Berlim já vinha se aproximando dos comunistas nas últimas semanas com os prognósticos de vitória. Do outro lado, Hollande já amenizava seu discurso paulatinamente, evitando um confronto mais árduo com Angela Merkel, chanceler alemã. Algo próximo a um acordo na área fiscal já vem sendo desenhado no backstage da Zona do Euro. Importante relembrar que a Alemanha também passará por eleições no próximo ano e, se Merkel sonha com a reeleição, precisa se preocupar com o público interno. Isto, claro, não necessariamente vem de encontro aos objetivos de longo prazo da região, mas converge com o discurso de Hollande.

Ao contrário do que os mais pessimistas afirmam, não acho que a França seguirá o caminho das trevas dos países periféricos da Zona Euro, tampouco que seu risco-país descolará drasticamente do alemão, inviabilizando o refinanciamento de sua (crescente) dívida pública.

Porém, de tudo isto se tirará uma experiência muito interessante para a história: um grande confronto ideológico entre socialismo e social-democracia se delineia, e boas conclusões poderão surgir com o passar dos anos. Para os economistas, um prato cheio. Para os franceses, só o tempo dirá…

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