Espanha: ¿Por qué estamos donde estamos?


Essa semana tem sido muito especial para o Economistinha, e temos hoje mais uma participação especialíssima: Felipe Insunza Groba, economista pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre pela Universidade do País Basco (UPV/EHU), escreveu diretamente de Madrid sobre a crise econômica na Espanha e suas repercussões sociais. Pormenorizada e muito completa, esta análise é uma leitura imprescindível para quem deseja entender o que se passa na península ibérica atualmente.

¿Vivimos por encima de nuestras posibilidades?

Essa é certamente a pergunta mais proferida por espanhóis nos últimos anos. Desde que a bolha imobiliária estourou por aqui, os espanhóis tentam acordar de um sonho que parecia sem fim, em que o país parecia ter superado o desemprego estrutural que sempre o caracterizou, em que todo jovem espanhol podia aceder à universidade a preços simbólicos (ou com gordas bolsas do governo), em que a saúde pública era excelente e gratuita, em que qualquer família de classe média tinha uma casa de campo e/ou de praia e em que muitos outros “luxos” (não vistos em países mais desenvolvidos como o Japão ou a Alemanha) eram dados como símbolo de desenvolvimento. Mas afinal, eram os espanhóis “pobres metidos a besta” ou o país realmente prosperou? Seria injusto dizer que o país com a maior densidade de aeroportos, autoestradas e trens de alta-velocidade da Europa viveu um sonho com dinheiro que não tinha?

Antes de tentar responder a essa questão, é importante entender de onde vinha o dinheiro que alimentou o sonho espanhol. Uma parte veio do crescimento per se, gerado pela rápida transformação de um país agrário e fechado em uma nação integrada à Europa, com grandes multinacionais (operando principalmente na América Latina) e uma emergente potência educacional. Outra parte desse dinheiro mal gasto (como tentarei descrever mais adiante) estava disponível no mercado em seu momento de mais incrível liquidez (leia-se, juros baixos e condições amigáveis).

Entretanto, talvez a parte que mais impulso deu à megalomania espanhola foram os fundos estruturantes europeus. Mas por que um Alemão, Austríaco ou Holandês austero emprestaria/investiria tanto dinheiro em projetos de infraestrutura de rentabilidade duvidosa? Entre as possíveis respostas, há que em épocas de boom é difícil discernir o que será rentável no futuro do que é mera especulação (definição de bolha), mas talvez a grande razão seja porque a União Européia e o Euro são em verdade grandes projetos políticos, o que muitas vezes deixa o critério de eficiência econômica em segundo plano. Afinal, o estado beligerante constante entre França e Alemanha durante 75 anos (1870-1945) poderia finalmente ter um final feliz através de uma maior dependência econômica entre esses países e seus vizinhos (e também que vizinhos e parceiros comerciais mais ricos fazem de você também um pouco mais próspero).

Agora que sabemos de onde veio o dinheiro, tentarei explicar porque qualifico seu uso de irracional, tendo em conta que o caso espanhol é muito similar ao dos países europeus resgatados, a saber Portugal, Irlanda e Grécia. A única idiossincracia do caso Espanhol é a existência das Comunidades Autônomas, que seriam como os estados da federeação brasileira, porém com maior liberdade de gestão, conquistada com a Constituição de 1978 que sucedeu a ditadura ultra-centralizadora de Franco. O sentimento de pertencer a uma comunidade autônoma, com identidades culturais e históricas (até linguísticas) próprias foi certamente um combustível para a perdularidade do espanhol. Com o regionalismo aflorado, todas as 17 comunidades autônomas (ou muitas vezes todas as 50 províncias) sentiram-se no direito de ter um ou mais aeroportos próprios; uma universidade pública com graduações e mestrados próprios (mesmo que num raio de 100km haja 4 similares); trens de alta-velocidade e auto-estradas conectando as capitais aos “pueblos” e muitos outros “luxos”. Nós sabemos, pela nossa experiência brasileira, que construir uma universidade e criar um ministério é muito fácil. Fechá-lo, entretanto, é muito difícil e sempre implica em grandes custos financeiros (encargos por demissões, multas por quebra de contrato, etc.) e políticos.

Sem mais enrolação, vamos aos exemplos concretos:

Educação & P+D:

É fato que a educação superior na Espanha está desconectada das necessidades do mercado de trabalho. Por aqui, vingou a panacéia de que todos DEVEM ter Educação Superior quase-gratuita e de qualidade – como se fosse possível massificar o ensino universitário sem sacrificar qualidade. Como dizem por aqui, “há pouco pão para tanto salame”, ou seja, um excesso de mão-de-obra qualificada para uma escassa oferta de emprego qualificado. Há poucos meses, veio a notícia de que universitários voltaram a buscar emprego como lixeiros em Madrid. Muitos já trabalham como garçons, entregador de panfletos e outras ocupações informais de pouca qualificação (a informalidade aqui está em níveis brasileiros). Nada contra empregos low skill, mas será realmente necessário investir milhares de euros de dinheiro público para formar um lixeiro especializado em Schopenhauer ou um taxista com mestrado em economia?

Mas qual é o impacto desse problema de alocação: desemprego global de 25%, e de 50% entre jovens menores de 25 anos. Além disso, essa cultura de ser “empregado” (e não o empregador), de colocar a culpa num governo que não gera emprego ou que te educou mal/pouco faz com que o empreendedorismo seja um elefante branco entre os jovens daqui. É mais fácil encontrar um jovem pedindo dinhero do governo para uma pesquisa inútil (não atrelada à necessidade de mercado) do que o mesmo jovem tomando um empréstimo para abrir um novo negócio.

Infra-estrutura:

50 aeroportos para um país um pouco menor que a Bahia e com população um pouco maior que São Paulo já soa absurdo (a Alemanha tem menos de 20). Ao saber que menos de 10 desses são economicamente viáveis e que muitos deles dão subsídios às empresas para que operem ali, é impossível não qualificar os espanhóis como “novos ricos” que “comem ovos mas arrotam filé mignon”.

Saúde:

Vale a mesma lógica da educação, com máquinas de diagnóstico subutilizadas e relação pessoal/paciente altíssima. E como cortar gastos em saúde? Como dizer à população para pagar mais pelos remédios subsidiados, pagar por pernoite num hospital ou mesmo criar mais barreiras à realização de exames e operações? Outra vez: é fácil criar estruturas e direitos, mas hercúleo destrui-los.

Mercado de Trabalho:

Um resumo do descasamento de oferta e demanda de mão-de-obra e das regras muito rígidas para a demissão e contratação. Sai mais barato manter no plantel um empregado ineficiente com salários altos que apostar num jovem com idéias frescas na cabeça mas pouco experiente. Resultado: as empresas não inovam.

Mesmo depois desse panorama da realidade e mentalidade espanholas, há quem duvide da razão para a Senhora Merkel cobrar austeridade dos espanhóis. Alguns economistas (prêmios Nobel como Stiglitz e Krugman) dirão que um forte ajuste fiscal agora só acentuará a recessão espanhola ou mesmo que as reformas estruturais levadas a cabo (como as da previdência, do mercado de trabalho, universitária) terão efeito nulo sobre o crescimento e/ou gerarão uma precarização da economia (empregos piores, profissionais mal-qualificados, saúde decadente). Entretanto, apesar de politicamente incorreto ou até mesmo reconhecendo um impacto negativo de curto prazo, parece claro que os espanhóis necessitam e merecem uma lição dos donos do dinheiro. Ficar no euro pode implicar em sérios desafios para o país, mas o fará conhecer-se melhor e voltar a um mundo real, onde há que se fazer escolhas com o dinheiro escasso do contribuinte, enquanto a saída do euro pode mascarar através de inflação e do nacionalismo alguns problemas crônicos da mentalidade espanhola.

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3 pensamentos sobre “Espanha: ¿Por qué estamos donde estamos?

  1. […] investidores virarão rapidamente seus olhos para a Espanha e seus bancos endividados. E como lemos aqui no Economistinha na semana passada, a situação da Espanha é de difícil resolução. Homer (Hollande e Merkel) teriam que abrir a […]

  2. Felipe Insunza disse:

    Você chama de Homer, mas seguindo a metodologia antiga (Merkozy) e dada a falta de sincronia deles, melhor seria MérDe!

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