Sobre ecochatos, grammar nazis e outros radicalismos bobos


Começo o texto com um excerto de um excelente artigo da Gazeta do Povo:

Tenho percebido recentemente um afã de muita gente que quer fazer algo para fazer o mundo melhor. Tenho amigos que abandonaram as sacolas plásticas. Outros que resgatam cães na rua e dão remédios, casa, comida e roupa lavada. Outros ainda que aderiram ao protocolo de Kyoto: só andam a pé, de ônibus ou de bicicleta.

O que me parece, no entanto, e conversando com mais gente descobri que não sou só eu, é que há uma certa confusão sobre o assunto: como se essas coisas, simplesmente, resolvessem um problema. Como se por aderir a várias (ou normalmente a uma só delas) você se transformasse em alguém melhor.

Em alguns casos, a causa vira mesmo algo mais forte, e quem não adere, não concorda, vira proscrito para os adeptos. Como se toda a bondade do mundo dependesse de você ser “um de nós”, de tomar “o caminho da verdade”. E, se não, você ainda é alguém que não viu a luz. Em suma, uma boa causa vira radicalismo.

Concordo plenamente com Rogério Galindo, responsável pelo texto acima, e sugiro a leitura do texto na íntegra.

A ansiedade, o estresse, o inconformismo, a tentativa de ser ouvido, não importa, diversos motivos fazem com que as pessoas tenham reações extremadas com alguns problemas do mundo. Multiplicam-se os posts no facebook equivalentes às antigas correntes, que para cada pessoa que curtir alguma empresa doará dez centavos à cura do câncer, ao fim da fome na África ou aos animais abandonados.

Impressora verde não utiliza tinta e o papel pode ser reutilizado até mil vezes. Mas custa mais de dez mil reais. Vale a pena?

O mesmo pode ser visto até mesmo em assuntos como a legalidade do casamento de homossexuais, por exemplo. Pessoas favoráveis e contrárias inflamam o debate, e o cerne da questão passa para um segundo plano. Será que é preciso mesmo tanto barulho? Ou como uma frase que vi estes dias: Se você é contra o casamento gay, é só não se casar com ninguém do mesmo sexo… (mantenham o bom humor e leiam o meu texto sobre os riscos de unir política e religião).

Às vezes, é preciso ponderar a importância de causar reboliço em torno do assunto que você quer defender. E se houver alguém contrário, será que não vale mais a pena respeitar aquela pessoa e usar outros argumentos ou procurar outros meios de atingir o seu resultado?

Outra coisa: erros de português. Nossa língua é difícil, as pessoas são desatentas, o ensino de base é deficiente e os erros se multiplicam nas redes sociais. Mas gritar com todos que escrevem “concerteza” ou não sabem a diferença entre mas e mais vai tornar o mundo um lugar melhor? Provavelmente não.

O que eu quero dizer é que não é porque alguém não adere à sua causa que esta pessoa deve ser expulsa do seu convívio social. Da mesma forma, é preciso ser compreensivo e paciente. Como Galindo disse em seu texto: E se alguém usa carro porque tem problemas de equilíbrio na bicicleta? Ou se simplesmente não gosta de cachorros. Ou se tem um dia tão corrido que não consegue parar para pensar em comprar sacolinhas verdes, ou seja lá como se chame. Ou se a pessoa simplesmente não estiver com vontade de aderir, quiser seguir outros princípios?

Gostaria de terminar este post com um pequeno trecho da entrevista incrível concedida pelo filósofo, matemático e crítico sócio-cultural Bertrand Russell em 1959.  Para assisti-la na integra, clique aqui. Como ele diz, nunca se deixe enganar por aquilo que você acha ser o certo para todos; e se queremos viver em harmonia, precisamos aprender a ser tolerantes.

PS: Não me coloco aqui como dono da verdade. Acho que, a medida que vocês me conhecem melhor, percebem que eu erro bastante. O mais importante, porém, é ter a elegância e a humildade de pedir perdão. E ao falar especialmente de grammar nazis, ou obcecados pelo português escrito (ao menos parcialmente) de forma correta nas redes sociais e na blogosfera, estou apontando o dedo contra mim mesmo. Mas estou tentando melhorar…

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3 pensamentos sobre “Sobre ecochatos, grammar nazis e outros radicalismos bobos

  1. Hoje em dia todo mundo é ativista de Facebook. Raramente acesso o feed de notícias, já que pessoas não fazem uso do senso crítico no que leem e já vão compartilhando, se achando “o” politizado. Eu até acho legal as pessoas começarem a fazer coisinhas com a intenção de fazer sua parte para melhorar o mundo (eu mesma sou usuária das green bags, não jogo lixo no chão e adoro meus amigos gays), mas um pouco de bom senso e comedimento são sempre bem vindos…

  2. Noemy disse:

    E qual o problema se as pessoas decidiram aderir à essas causas, como resgatar cachorros, não usar carros para se deslocarem ou não usar sacolinhas plásticas dos mercados ? Qual o problema ? Mais chatos ainda são aqueles que criticam os que resgatam cachorros, andam de bicicleta ou não usam sacolas plásticas, estes sim sentem-se incomodados ! Se não são fortes o suficiente para tentar mudar alguma coisa e escolheram o comodismo, deixe quem tem coragem para tais façanhas em paz !!!

    • franciskinder disse:

      O problema não é aderir às causas, Noemi, mas fazê-lo unicamente na esfera digital, para os outros verem. Ou então aderir de forma plástica, elegante, sem se envolver realmente. E outra coisa: é importante respeitar as opiniões de quem não quer aderir. Vivemos em tempos em que qualquer pessoa que não adere e assume é vilanizada com facildade. E isto é péssimo.

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