A importância do discurso oficial no combate à inflação


Todos já devem saber do rebuliço causado por uma frase infeliz (para dizer o mínimo) de nossa excelentíssima senhora presidente da república, Dilma Rousseff, da semana passada:

Eu não concordo com políticas de combate à inflação que ‘olhem’ a questão do crescimento econômico, até porque temos uma contraprova dada pela realidade: tivemos um baixo crescimento no ano passado e um aumento da inflação, porque houve um choque de oferta devido à crise e fatores externos.

Que frase infeliz, hein Dilma…

A reação do mercado foi imediata: a expectativa de juros futuros dos investidores cedeu, acreditando em uma influência direta da presidência sobre as decisões do Banco Central.

Além da possibilidade de menosprezo ao controle da inflação em si, que já é um problema grave, a frase de Dilma respingou na autonomia do Banco Central. Aí você me pergunta: mas porque é importante ter um BC independente? Deixarei o economista Roberto Luís Troster responder:

troster

 

O governo pode confundir seus próprios interesses de curto prazo (como Troster disse, popularidade/eleições) com os de longo prazo do Estado, da nação (estabilidade e crescimento sustentado). E aí reside a importância de um BC independente.

Voltando, então, à questão principal deste post: Por que o discurso é tão importante?

Porque os preços são formados, basicamente, por:

1) Preços passados. O preço de ontem é fator importante na formação do preço de hoje.

2) Atividade econômica: se a economia está aquecida, a demanda por produtos e serviços aumenta. Logo, os preços sobem para ajustar a economia. O oposto acontece em uma economia deprimida: se a demanda se retrai, o ofertante terá menores incentivos para subir os preços (se não reduzi-los).

3) Custos. Se os custos estiverem acima do preço final, é pouco provável que haja oferta. Neste caso, os preços devem subir.

4) EXPECTATIVAS.

Aqui mora a grande incógnita da formação de preços em uma economia.

Se os ofertantes acham que a economia vai melhorar (ou que seus custos vão subir), eles tentarão antecipar o movimento para não perder dinheiro. Aí, o nível de preços sobe mesmo.

Dentre outros motivos, é por isto que as taxas de juros futuras têm influência nos níveis de preço: se um produtor achar que terá de pagar mais juros no futuro para financiar investimentos, pode desistir de alguns. No agregado, isso desacelera a economia como um todo, freando a aceleração dos preços.

Devido a isto, economias mais indexadas tendem a apresentar inflação mais resistente.

Até hoje, ainda temos resquícios de quando boa parte de nossa economia era indexada: os contratos de aluguel, por exemplo. Eles são reajustados com base em índices de inflação como o IGP-M. Até a década de 80, até mesmo salários eram reajustados desta forma. Aí, quem podia se antecipar colocava uma gordurinha a mais, especialmente com o temor dos congelamentos de preços (a partir do plano cruzado).

Está formada a grande panaceia dos preços: a inflação vai subindo de patamar em patamar: de 2%am para 4%am, para 8%am, para 16%, até chegarmos aos estratosféricos níveis de mais de 1000% de inflação ao ano.

Portanto, Dilma, fique quietinha que continuamos gostando de você. Ou não.

 

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