O Povo Brasileiro


Quando o senhor barão de Montesquieu estava em sua baronil casa, baronilmente escrevendo O Espírito das Leis eu fico pensando o quanto ele imaginava que preconizar a independência harmônica das esferas de governo seria levado em conta num futuro não muito distante.

A cara do esperado futuro Povo Brasileiro.

Vejam só, comecei essa crônica com uma frase enorme e sem sentido. Vamos tentar esmiuçá-la: Charles Louis de Secondat, le Baron de Montesquieu era um francesinho muito do metido a inteligente e resolveu um dia explicar como funcionava a seu gosto o mundo político. Sentou numa sua cadeira, que eu espero que fosse confortável, e começou a escrever L’Esprit des Lois – o espírito das leis – obra não muito kardecista mas não menos sutil em seus meandros. Lá nesse seu muito pouco espiritual livro ele diz que os poderes [executivo, legislativo e judiciário] deveriam ser harmônicos e independentes entre si. Ou seja, todo mundo trabalha junto mas ninguém manda em ninguém. Quem diria, um barão francês, lá duns quatrocentos anos atrás, sendo praticamente comuna!

Como eu pessoalmente não li o tal do livro não posso afirmar que ele fale isso, que ele explique bem explicado ou sequer que faça lógica o que ele diz. Mas a ideia é extremamente interessante. Pessoas que conjuntamente mas sem meter o maldito bedelho na vida uns dos outros saem por aí gerindo e fazendo o melhor pra uma sociedade. Gosto disso.

Confúcio, aquele chinês divertidíssimo que uns quinhentos anos antes de Cristo estava criando uma coleção de frases e histórias memoráveis pra que seus discípulos pudessem instituir o confucionismo, tinha também uma visão interessantíssima do estado, não sei se cês sabem. Ele criou um sistema imperialmente constituído de concursos públicos – China, sua avançadinha! Os cargos públicos eram dados àqueles mais capacitados e que estudavam para tanto. E inclusiva, tem alguma coisa na minha memória me dizendo que isso é talvez anterior até mesmo ao sábio Kung Fu Tzeo. Pesquisem aí na aba ao lado e depois me contem.

Já vejo um leitor pensando em desistir da leitura porque não tá vendo ligação entre um chinesinho cheio das frases de sabedoria e um francês todo escrevente em seu baronato. Desiste não, leitor confuso. Eu ainda nem cheguei a falar da Parada Gay de São Paulo! Sim, porque esse texto todo cheio de pensamento político é pra chegar num evento gay promovido com o nome do santo mais assexuado do panteão católico – se fosse pelo menos são sebastião…

E o que tem a ver, seu danilo? O que tem a ver é que num paiseco chamado Brasil uns milênios depois de Confúcio, uns séculos depois de Montesquieu e tempo indefinido depois da parada gay de 2013, os homossexuais não são oficialmente casáveis embora sejam legalmente casáveis. E o porquê disso é a montesquiana independência harmônica dos poderes.

Nosso amantíssimo poder judiciário na figura do seu Conselho Nacional de Justiça emitiu tempinho atrás uma resolução dizendo que todos os cartórios do brasil são obrigados a transformar as uniões estáveis entre homossexuais em casamento, com todo o status quo de casamento civil, e também são obrigados a fazer os ditos casamentos. Isso contrariando a legislação brasileira, cuja alteração e criação é do poder legislativo, que ainda coloca o casamento como a união entre homem e mulher e só, pronto acabou.

Aí você se questiona, não é leitor amado, porque nossos poderes harmônicos e independentes andam tão independentes e desarmônicos entre si? A questão é confucianamente respondida: o poder judiciário é formado por pessoas cujo exímio conhecimento e estudo são comprovados. Sei de um bode eleito vereador nesses desvãos do brasil num alívio cômico contra os poderes popularmente instituídos para mal do povo. Agora, bode juiz, desconheço. Até recentemente um deputado foi eleito com o mote de que “pior que tá não fica”.

Nosso legislativo é um desfile representativo [a questão da representação real e não fingida e corrupta fica pra outro tempo e outro escritor de mais gabarito] da população brasileira. Infelizmente por ser eleito e depender dos “favores da populaça” nosso legislativo usa dos piores qualificativos que se pode impingir ao povo para manter seu status quo: é retrógrado preconceituoso e ignorante. A ele se contrapõe um judiciário liberal, culto e . Apensa gostaria de lembrar que o mesmo povo que escolhe e “obriga” o legislativo a manter sua posição em questões delicadas como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, esse mesmo povo é que deu origem ao homem que assinou a resolução do CNJ: o ministro Joaquim Benedito Barbosa Gomes, que vencendo preconceitos raciais e econômicos, é hoje presidente do Supremo Tribunal Federal.

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