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Uma resposta científica para a pergunta: Quais as chances de você encontrar a sua alma gêmea?

Desde o início dos tempos, poetas e filósofos ponderam sobre as chances de encontrarmos uma alma gêmea e sobre o amor. Mais recentemente, cientistas também entraram nesta valsa romântica.

Joe Hanson, apresentador do programa “It’s okay to be smart”, usou o Paradoxo de Fermi, a Equação de Drake e uma lição de Carl Sagan para tentar desvendar quais as chances de se encontrar o amor verdadeiro, a alma gêmea.

Veja abaixo:

Ele encerra com uma bela citação do livro Contato, de Carl Sagan:

For small creatures such as we the vastness is bearable only through love.

Vi no Brain Pickings.

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O mês em que me tornei uma feminista peluda, por Melissa de Miranda

A Melissa de Miranda é uma grande amiga que eu ainda não conheci, uma daquelas pessoas com quem cruzamos pelo mundo virtual e nos encantamos pela sua inteligência, carisma e incrível capacidade de expressão. Ontem à noitinha ela publicou em seu facebook este texto que eu copio abaixo. Simplesmente INCRÍVEL. Vale a leitura, mesmo que você, leitora, nunca deixe de se depilar.

Este texto começa com a minha vergonha em compartilhar esta foto (abaixo). Minha relutância e pavor – independentemente de quantos artigos feministas já li ou escrevi. E então aquela voz que sussurra baixinho em minha consciência: mas não temos todas nós, mulheres adultas, pêlos?

E decidi: se compartilhar e escrever, talvez outra garota se sinta bem com o seu corpo.

Naturalmente a resposta é que sim. Temos. Mas, em termos de cultura, não. Não temos. Ou não em público, pelo menos. Antes que alguém me venha com a clássica – “cada um faz o que quer” –, já aviso que não é bem assim e vocês sabem que não. Risadas, olhares de nojo e dedos apontados na rua nos dizem que não. Da forma mais grosseira e invasiva possível. Somos piadas para conhecidos, para a família, para estranhos. Eu posso atestar isso. De todas as formas que o meu feminismo incomoda as pessoas à minha volta (“você não vai ser aquelas loucas, chatas, né?”), a principal preocupação é se eu, pelo amor de Deus, vou continuar a me depilar. Porque manter os meus pêlos não é uma opção. Deixar os seus pêlos crescer, aí sim, é ultrapassar todos os limites do aceitável.

Que vergonha. Que horror.

O que me preocupa é que cada vez mais a feminilidade está associada ao que não é natural para as mulheres (todos os pêlos arrancados, a maquiagem o dia inteiro, o cheiro artificial comprado em farmácias). E o que é natural é voltado contra nós [1] – nossos pêlos são motivo de estresse e de vergonha; nossa menstruação é nojenta; nosso corpo pós-parto é grotesco. Quando Simone de Beauvoir disse que não nascemos mulheres e, sim, nos tornamos mulheres, duvido que ela pudesse previr o quão caro isto custaria no século 21. Isto é, semanalmente. Dos nossos bolsos, de todas nós.

A feminilidade não está associada a algo que temos naturalmente. Precisamos comprá-la, constantemente, e então mantê-la. Estou falando de procedimentos (no plural!) que gastam tempo e dinheiro, que nos causam dor, e cuja ausência muitas vezes nos impede de dormir com alguém, de vestir shorts no calor, entrar na piscina ou até de sair de casa. É algo semelhante ao que os homens vivenciam com a impossibilidade de manter-se em determinados empregos e deixar a barba crescer – o que vira sinônimo de desleixo e falta de higiene –, mas em demanda e proporções bem maiores.

Lembra quando vocês ficaram bravos com a moda metrossexual?

Pois são todos os nossos pêlos. Buço, axila, pernas, virilha, rosto, costas, barriga, braço. Junte isso à gordofobia e a uma cultura pesada de valorização feminina pela aparência [2] que já dura séculos e não me parece surpresa alguma o quão intensamente nos odiamos. Não ouvimos nenhuma dizer o contrário [3]. Somos, por natureza, um incômodo a nós mesmas. Temos dez vezes mais [4] distúrbios de alimentação, associados a autoimagem. O quádruplo [5] das tentativas de suicídio, ainda que os homens sejam três vezes mais bem-sucedidos neste campo. Isto são muitas (muitas!) mulheres.

Esta foi a primeira vez em 26 anos que deixei os meus pêlos crescerem e saí de casa sem escondê-los. Começou com uma campanha de saúde – a Armpits4August [6] –, mas se tornou uma jornada de leituras e mais leituras e novas experiências. Descobri coisas muito interessantes pelo caminho e gostaria de compartilhar algumas:

A – AO CONTRÁRIO DO QUE TE DISSERAM, É MAIS HIGIÊNICO!

Pêlos existem em nosso corpo por um motivo. Entre eles, para nos proteger (impedindo que bactérias e suor entrem em nosso canal vaginal, por exemplo), regular a nossa temperatura e afastar o suor da nossa pele. Li o depoimento de um médico que explicava como as bactérias, inclusive as que causam odor, se proliferam melhor na pele depilada. Afinal, criamos ali um ambiente úmido, quente e desprotegido. Agora claro que eu não deveria ter te contado isso, não é? Talvez você economize na farmácia e no consultório e ninguém vai querer isso. Melhor continuarmos escurecendo a pele estressada da nossa axila e gastando dinheiro para nos arrancarem os pêlos do corpo um a um, com cera quente.

B – É UMA QUESTÃO DE GOSTO… MAIS OU MENOS…

O mais curioso foi uma das vezes em que argumentei isso (tópico A) e um cara, provavelmente com todos os seus pêlos intactos (assim como toda a outra metade da população mundial tem), respondeu: “prefiro todas as bactérias do mundo a mulheres peludas”. Uau, quanta consideração! E está aí possivelmente a raiz – see what I just did there? – do problema. A rejeição. Ah, aquele sentimento tão antigo de que só somos felizes e inteiras se temos alguém; ah, aquele medo então de ofender e de perder todas as nossas chances; oh céus, os homens e a nossa solidão. Coitada da Nanda Costa [7] (e a enxurrada de xingamentos que recebeu!).

Tesão, como muitas outras coisas em nossa sociedade, é cultural. Em termos gerais. O que achamos bonito ou feio é algo que – sinto informar a sua falta de originalidade, amigos e amigas – aprendemos através das nossas experiências, o que nos garante certa individualidade, mas mais massivamente graças aos padrões vigentes. E também muda, como tudo na sociedade. Nos anos 80 os pêlos eram (mais) aceitos; nos 90, adotaram uma moda mais discreta; e nos 2000, com a chegada da internet e expansão da indústria pornô, foram banidos e restritos à categoria “fetiches bizarros”. E agora, em pleno ano de 2013, garotos de quinze anos esperam que as suas namoradinhas não tenham um pêlo sequer (eca!), em lugar algum, antes mesmo de enfiar a sua mão (com consenso, pfvr!) calcinha adentro, alguma vez na vida. Roubei esta teoria da incrível Caitlin Moran [8], a propósito.

Aos amigos, por favor, leiam esse artigo [9] do Manual do Homem Moderno. Eu adorei.

Mas agora falando sob uma perspectiva bastante pessoal, me parece mais atraente alguém que controla o próprio corpo e as suas escolhas; sabe aquela autoconfiança e independência realmente sensuais? A meu ver, quem é segura o suficiente para bater de frente com a sociedade é também mais segura na cama e na forma como conduz a sua sexualidade; me parece bem mais instigante ver alguém sem medo de se expor, de tentar algo diferente. E presume-se que, no mínimo, a pessoa já discutiu e leu muito antes de sair por aí sendo contracultural. Está pré-disposta a ter uma cabeça mais aberta. E cada vez mais me atraio por quem quebra as regras e menos por quem segue todas elas sem questionar. Faz sentido?

Outra vantagem é que os meus pêlos fazem a pré-seleção natural por mim. Dos (e das) babacas com quem não quero me envolver.

C – HAIRY MAKES IT HOTTER! (a cama e a ciência comprovam…)

Podemos discutir à vontade. Mas a verdade é esta: pêlos em seu habitat e formato natural não só aumentam a sensibilidade prazerosa – e não a negativa; quantas de nós sentem dor com o atrito [10] nos primeiros dias após a depilação ou quando o pêlo começa a crescer novamente? –, como são os principais responsáveis pela liberação de feromônios. Aquelas partículas mágicas, conscientemente imperceptíveis, que flutuam no ar e fazem outras pessoas quererem transar com você. Se chama natureza – e ela sabe o que está fazendo, ok.

Li duas pesquisas diferentes, durante este mês de agosto, que falavam sobre os efeitos físicos dos feromônios em pessoas vendadas e achei espetacular os resultados. Uma pessoa excita a outra sem qualquer percepção (consciente). E paralelamente, imagino que mulheres esterilizadas façam alguém querer transar com elas tanto quanto plástico. Mas como eu disse antes, tesão é cultural e nós o estamos comprando em sex shops, já que todos os atrativos físicos que natureza nos deu nós, claramente, estamos erradicando.

Google it!

D – TER PÊLO É, POIS É, FEMININO!

Eu sei. Eu sei. Eu sei. Não é fácil se livrar do que você por décadas acreditou ser atraente ou condizente com o fato de que você nasceu com um sistema reprodutor feminino (bingo!) e é mais difícil ainda se livrar da droga do binarismo de gênero (vamos parar de colocar as coisas de meninos numa caixinha e as de meninas em outra? Assista isso, mudou minha vida [11]). Mas pêlos são, de fato, uma coisa de mulher adulta.

E – O FEMINISMO E A LIBERDADE INDIVIDUAL

Ninguém deve te obrigar a nada. Nem a depilar, nem a manter. Como diria Vange Leonel, frase esta constantemente citada por mim, o feminismo é um esforço diário. Esses conceitos (tópico D) estão enraizados dentro de nós e boa parte do processo de desconstrução trata-se de um exercício mental consciente. Não vem da alma, acredite. É discutir. Questionar. Rever. Se colocar fora da sua zona de conforto. E voltar correndo num belo dia de sol – e se depilar por mais três meses de verão no escurinho do seu banheiro – para depois tentar de novo ou nunca mais. Sabe-se-lá! Acontece. Devemos fazer o tanto quanto queremos fazer.

Ninguém deve se sentir obrigada a se depilar. Ou a rejeitar tudo o que não é natural. Gente! Eu sou SUPER a favor das possibilidades e das liberdades individuais. Vamos pintar o cabelo de roxo ou raspar a cabeça, fazer plástica, furar o próprio corpo, tatuar, depilar ou não e o que quisermos. Viva! O que me incomoda é apenas a obrigatoriedade da depilação. A imposição de um único padrão que não seja associado a termos negativos em nossa sociedade – suja, porca, feminista cabeluda e sapatão (sim, sou eu!) –.

Claro que a luta, em termos mais amplos, é para que não sejamos julgadas moralmente ou classificadas por nada de antemão pelo que usamos ou fazemos com o nosso corpo. Mas é aí que se torna importante sermos – e vermos – cada vez mais mulheres diferentes. Os pêlos no meu corpo abrem espaço para outras mulheres se expressarem nas mais diversas maneiras. Não se trata de abdicar da depilação como um todo, se trata de normalizar outras opções. E não só uma (oooh, so boring!).

O FATO É: MULHERES TÊM PÊLOS. Superem isso. Usem os seus com orgulho – ou ao menos, busquem uma relação mais saudável e amorosa (menos repulsiva) com o seu próprio corpo.

UNS LINKS ÚTEIS:

[1] Artigo “Nojenta?”, da Revista TPM:

http://revistatpm.uol.com.br/revista/89/reportagens/nojenta/page-1.html

[2] Artigo “Men and the Sexualization of Young Girls”, do Hugo Schwyzer:

http://goodmenproject.com/ethics-values/men-and-the-sexualization-of-young-girls/

[3] Entrevista “Kate Winslet: I accept my body”, no Belfast Telegraph:

http://www.belfasttelegraph.co.uk/woman/fashion-beauty/kate-winslet-i-accept-my-body-28677609.html

[4] Distúrbios de alimentação e autoimagem, na UOL:

http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=11984&cod_canal=33

[5] Estatísticas de suicídio, no ABC da Saúde:

http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?401

[6] Artigo sobre o “Armpits 4 August”, no The Guardian:

http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2013/jul/18/armpits-4-august-body-hair-feminist

[7] Artigo “Nanda Costa salva a Mata Atlântica” sobre depilação, no NLucon:

http://www.nlucon.com/2013/08/nanda-costa-salva-mata-atlantica-da.html

[8] Obra “Como ser mulher” da Caitlin Moran, na Livraria Cultura:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=30181875&sid=72222021414866889672967

[9] Artigo “Preconceito dos ‘pseudo-homens’ contra as mulheres peludas”, no MHM:

http://manualdohomemmoderno.com.br/comportamento/nanda-costa-e-o-preconceito-dos-pseudo-homens-contra-as-mulheres-peludas

[10] Vídeo “Teat Beat of Sex: Hair”, no MadAtoms:

http://youtu.be/q-Pk3dYUl5w

[11] Vídeo “Alice Dreger: Is anatomy destiny?”, no TED Talks:

http://www.youtube.com/watch?v=59-Rn1_kWAA

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O papel desastroso do governo sobre a economia brasileira

Recentemente, o professor da Harvard Business School Michael Porter, um dos maiores gurus em competitividade do planeta, deu uma excelente entrevista à revista Exame, que reproduzimos na íntegra para vocês abaixo. Antes, vou ressaltar alguns pontos importantes, dos quais vários já discutimos previamente aqui n’O Economistinha.

— Da falácia do crescimento econômico: “a prosperidade que se vê muitas vezes não decorre do ganho de produtividade.”

Nos últimos anos, o Brasil observou um crescimento econômico forte. Com a distribuição econômica, a qualidade de vida de boa parte da população também subiu. Isto é excelente, porém não é sustentável ao longo do tempo, porque ocorreu basicamente com o aumento da exploração de recursos naturais, ou com o crescimento de setores de baixa complexidade, como a agropecuária. O Brasil não se tornou mais competitivo, ao contrário: a presença do Estado na economia aumentou, engessando-a ainda mais.

— Da presença excessiva do governo na economia: “Em países como o Brasil, o papel do governo é, francamente, um desastre. O governo é muito burocrático. Os impostos são complexos e pesados. O Brasil tem muitos recursos, gente inovadora. Mas o peso do setor público atrasa o crescimento do país.”

Não preciso dizer mais nada, né?

— Brasil: macro e microeconomicamente: “O governo conquistou estabilidade macroeconômica, mas em termos microeconômicos não avançou muita coisa. O Brasil terá de se transformar nos próximos 20 anos. Ou então ficará para trás.”

Novamente, a questão das burocracias, do excesso de impostos, da falta de infraestrutura, de pessoal especializado impactam diretamente a produtividade do país, que está fadado ao fracasso se não passar por reformas URGENTES.

— Sobre o protecionismo crescente: “protegidos, os negócios locais não melhoram”

Os americanos são fortemente contra o protecionismo, por diversos motivos. Mas deste argumento, não temos como discordar.

— O segredo para recuperar a competitividade: “recuperar fundamentos como infraestrutura e educação básica”

Detalhe: neste ponto, Porter estava falando dos Estados Unidos. Sim, mesmo a maior potência global precisa se recuperar em aspectos básicos, como infraestrutura e educação básica. Do Brasil, então, nem se fale. Historicamente, políticos e elites tentaram evitar que a população em geral tivesse acesso a educação. Isto gera um atraso sem fim. Atualmente, muitas escolas públicas brasileiras estão destruídas, com professores mal preparados e sem nenhuma estrutura. Formam-se gerações e gerações de profissionais sem nenhuma capacitação.

Da infraestrutura, nem é preciso falar muito. Portos sucateados, estradas esburacadas, linhas de trens inexistentes, sistema de comunicação pré-histórico, transporte urbano caótico, focado no transporte individual, falta de saneamento, etc etc etc. Poderíamos ficar aqui até amanhã relatando os problemas. Como estas obras não trazem mais votos, o interesse político é baixo. Vale mais a pena gastar bilhões em estádios de futebol que, depois de quatro jogos, ficarão às moscas, obviamente. Até quando?

EXAME – Diante da crise persistente que abate países ricos, pode-se dizer que a definição de competitividade mudou no mundo atual?

Michael Porter – Competitividade é um conceito atemporal e se apoia em duas condições básicas, no caso dos países. Em primeiro lugar, as empresas locais têm de conseguir competir em mercados globais. Ao mesmo tempo, o padrão de vida de seus habitantes tem de melhorar. Sem nenhuma dessas duas­ condições, o país não é competitivo. E somente o ganho de produtividade permite conciliá-las.

EXAME – Por que os países ricos perderam competitividade?

Michael Porter – Os mercados emergentes cresceram rapidamente e os países ricos não seguiram o mesmo ritmo de progresso. A globalização começou na década de 70 e os países ricos se deram bem no começo porque as nações emergentes eram ineficientes.

Ao mesmo tempo que as nações emergentes melhoraram, os países mais ricos passaram a enfrentar o envelhecimento da população — e o consequente aperto no orçamento, sobretudo nas áreas de saúde e previdência. A combinação dos dois fatores é um fenômeno relativamente novo no cenário mundial.

EXAME – Em sua opinião, os países emergentes estão aproveitando a oportunidade? 

Michael Porter – Economias emergentes, como o Brasil e alguns países da Ásia, beneficiaram-se de fatores como a explosão dos recursos naturais. Isso faz parecer que um país é próspero. A verdade é que a prosperidade que se vê muitas vezes não decorre do ganho de produtividade. Os países emergentes têm agora uma grande oportunidade.

É mais fácil melhorar quando você é fraco, copiando os líderes. O envelhecimento  da população ainda não é um problema crítico. Mas a prosperidade não será automática e linear nos próximos anos. Não sei se a era de ouro vai durar mais três ou dez anos. Desafios vão surgir. Já temos um ajuste de salários. A diferença de salários entre trabalhadores indianos ou chineses e americanos já diminuiu.

EXAME – O senhor vê uma estratégia por trás do crescimento em países emergentes?

Michael Porter – Alguns países melhoraram fundamentos básicos, como educação, saúde e infraestrutura. Abriram seus mercados para investidores estrangeiros e criaram regras mais estáveis. A China, por exemplo, segue uma estratégia clara, mas que não coincide com o interesse de seus cidadãos.

Abusa de baixos salários e da intervenção excessiva do governo. Algumas dessas políticas funcionam no curto prazo, mas vão custar caro com o tempo. Esse cenário não vai permitir que a economia chinesa se torne vibrante no futuro.

EXAME – De que maneira essa postura pode ser um problema no futuro?

Michael Porter – Salários baixos são uma fonte temporária de competitividade. Salários baixos não constroem países competitivos. Esses países não deveriam se preocupar se os salários estão se tornando mais altos — eles deveriam deixá-los subir, porque isso vai criar prosperidade.

A China distorceu elementos da competitividade e criou um jogo de ganha-perde com o resto do mundo. Mas não será capaz de crescer no futuro com esse modelo. Sem proteção de propriedade intelectual, por exemplo, não existe inovação, e isso vai ser um problema.

EXAME – Quais são os outros fatores que podem atrapalhar o crescimento de países emergentes?

Michael Porter – Em países como o Brasil, o papel do governo é, francamente, um desastre. O governo é muito burocrático. Os impostos são complexos e pesados. O Brasil tem muitos recursos, gente inovadora. Mas o peso do setor público atrasa o crescimento do país.

O governo conquistou estabilidade macroeconômica, mas em termos microeconômicos não avançou muita coisa. O Brasil terá de se transformar nos próximos 20 anos. Ou então ficará para trás. Não é um problema para os próximos dois ou três anos. Mas será um problema daqui a dez ou 15 anos.

EXAME – Qual é o melhor exemplo de país que tenha superado o excesso de burocracia?

Michael Porter – É difícil achar uma referência comparável ao Brasil, pelas suas dimensões. A Indonésia se livrou de problemas ao simplificar o governo. A Colômbia também fez rápido progresso no ambiente de negócios quando o governo passou a atrapalhar menos.

EXAME – Nos últimos anos, a indústria perdeu peso no PIB brasileiro. É possível um país ter produtividade sem uma indústria forte?

Michael Porter – Negócios bem-sucedidos são a base de uma economia próspera. A indústria cria empregos, paga impostos e faz a economia crescer. Governos não podem criar riqueza. Negócios criam riqueza. E a maneira correta de garantir que isso aconteça não é com monopólio ou distorções.

EXAME – Alguns países, inclusive o Brasil, têm recorrido a barreiras protecionistas para frear a concorrência estrangeira. O que o senhor acha dessa estratégia? 

Michael Porter – É algo tentador, mas quase nunca funciona. Uma vez que você começa a fazer isso é difícil parar. E, protegidos, os negócios locais não melhoram. Um dos casos raros em que o protecionismo resultou em melhora é o da Coreia, onde as companhias locais promovem um ambiente competitivo suficiente para gerar produtividade. No Japão, há evidência de maior sucesso em áreas não protegidas. E o desempenho de setores protegidos foi um fiasco.

EXAME – A competição global pode se tornar um jogo em que todos ganham?

Michael Porter – A competitividade não é necessariamente um jogo de soma zero, em que um país ganha se o outro perde. A convivência sem barreiras pode ser produtiva para todos. Hoje, todo país precisa ter multinacionais — tanto empresas de fora em seu território quanto empresas locais com presença internacional.

Se você entende que produtividade é algo que define a competitividade, então você vai querer multinacionais de classe mundial em seu território. Essa é uma razão pela qual o protecionismo é uma ideia morta atualmente.

EXAME – Ainda estamos distantes de uma recuperação da crise?

Michael Porter – Vivemos a mais lenta recuperação de uma crise na história americana. Num le­vantamento que fizemos na universidade, descobrimos que o declínio da competitividade americana começou no fim dos anos 90. Ainda temos uma massa de empreendedores fenomenal e centros tecnológicos de ponta.

É preciso, no entanto, recuperar fundamentos como infraestrutura e educação bá­si­ca. Há um grande caminho para as empresas americanas no que se refere também ao ganho de produtividade. Uma crise raramente decorre de forças impossíveis de conter. Quase sempre resulta de um conjunto de decisões. É uma questão de fazer as escolhas certas.

 

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Texto extraído do Valor, com a opinião do Professor da FGV-SP Yoshiaki Nakano:

A mudança na condução da política monetária que o Banco Central (BC) vem promovendo está criando as condições para reduzir a taxa de juros no Brasil, equalizando-a ao nível internacional. Se isto acontecer, sairemos de uma armadilha que trava o crescimento acelerado da economia brasileira há quase duas décadas.

A mudança promovida pelo Banco Central, particularmente com a histórica decisão de agosto do ano passado, já está formando a expectativa de redução na taxa Selic de forma que os agentes do mercado financeiro começam a considerar alternativas de investimento financeiro. Entretanto, a utilização pelo Banco Central como juro básico na condução da política monetária, a taxa Selic, a mesma taxa de juros que o Tesouro Nacional oferece para vender seus títulos, impedirá o surgimento destas alternativas de investimento. E, com isso, a taxa de juros não convergirá para o nível internacional. Há problemas conceituais que precisam ser corrigidos para que a taxa básica da economia brasileira seja reduzida. Para promover uma verdadeira revolução na economia brasileira basta mudar algumas regras operacionais do Banco Central e do Tesouro Nacional.

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Segundo Nakano, para reduzir juro, Selic precisa acabar

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