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Qual o futuro da economia mundial?

O mundo não acaba em 2012. E dificilmente a economia global entrará em recessão.

A pergunta de um trilhão de dólares (ou um bilião, em Portugal… quer entender? Clique aqui) é aquela que todos os economistas com rabo preso morrem de medo de responder. Como eu estou desempregado no momento e não respondo por nenhuma instituição (ou seja, meu palpite não vale um centavo), não tenho com o que me preocupar.

Alguns economistas esperam o pior, como mostrou a Exame:

Apesar dos sutis sinais de recuperação da economia americana no início do ano, como a melhoria nos índices de desemprego, para Lakshman Achuthan, CEO do Economic Cycle Research Institute, este não será um bom ano para os Estados Unidos. Analisando previsões para os indicadores de produção, emprego, renda e vendas, o instituto concluiu que o “crescimento econômico dos Estados Unidos está, na verdade, piorando e não se revitalizando”.

Para Albert Edwards, estrategista da Societe Generale (SocGen), não só a economia americana vai escorregar de novo para a recessão, como a bolha de crédito na China vai estourar e a zona do euro vai desmoronar.  “Se você acha que as coisas estão ruins agora, elas estão prestes a ficar piores”, disse ele, em entrevista ao The Globe and Mail.

Para Bill Gross, o megainvestidor fundador da Pimco, o problema na Europa é apenas um tumor localizado, mas o “câncer no crédito pode estar em metástase”. Em sua coluna no Financial Times, ele disse que o sistema monetário global é “fatalmente falho”, com rendimentos cada vez menores e mais arriscados, produzidos por crises de dívida e as respostas políticas a ela.

Para Peter Schiff, CEO da Euro Pacific Capital, o pior da crise ainda está por vir. Ele defende que a economia americana não está melhorando, mas sim ficando mais “doente” e que verdadeira crise não está no passado e sim no futuro. Para o analista, ao tentar evitar a “dor” da cura, os Estados Unidos só adiaram o sofrimento, que será ainda maior.

Para Marc Farber, investidor e autor da newsletter Gloom Boom & Doom Report, pode haver uma recessão global já no quarto trimestre deste ano ou no início do próximo. Para o investidor, há “100% de chance” que isso aconteça. Em entrevista à CNBC.com, ele destacou que, enquanto o mundo se preocupa apenas com a Grécia e com a Europa, há sinais preocupantes de que a atividade econômica na China e na Índia está diminuindo.

Pouco a pouco, vão sumindo as vozes que acreditam que a economia mundial está melhorando. Curioso que, em 2009, muitos achavam que a crise já havia ficado para trás, enquanto qualquer análise mais atenta apontaria os graves problemas que as políticas monetárias expansionistas (ou seja: encher o mercado de dinheiro para aumentar a liquidez dos mercados e fazer a economia girar novamente) teriam consequências graves.

Como os mercados financeiros são cheios de profecias auto-realizáveis, se os rumores de que a economia mundial deve ir novamente para o buraco, provavelmente ela irá. Mas não acredito que este seja o cenário mais provável.

Os principais líderes mundiais têm tentado controlar a crise do jeito que podem, mas sem realizar reformas substanciais. Ou seja, o cerne do problema não tem sido atacado como deveria. Apenas se tem maquiado o problema, através de medidas pontuais (geralmente envolvendo injeções monetárias aqui ou ali). Há três lugares de que não se pode tirar os olhos, se quisermos saber se a crise vai estourar (como em 15 de setembro de 2008):

– – – Europa: sem dúvida, o mais importante. Mesmo que a Grécia saia do Euro (cenário para que dou probabilidade de 40% atualmente), não é garantido que a crise se agravará substancialmente. Se isto acontecer, a volatilidade aumentará e os investidores virarão rapidamente seus olhos para a Espanha e seus bancos endividados. E como lemos aqui no Economistinha na semana passada, a situação da Espanha é de difícil resolução. Homer (Hollande e Merkel) teriam que abrir a mão e fornecer muito dinheiro tentando equilibrar as contas dos bancos (através do governo) da Espanha, e provavelmente a Europa se tornaria mais unida (diminuindo a independência dos governos nacionais). Provável? Não.

Mas mesmo este cenário é pouco provável. É mais credível que Angela Merkel cederá e mandará mais dinheiro para a Grécia, mesmo não sendo um país muito organizado. A Europa seguiria como está, empurrando o problema com a barriga e ganhando tempo… seriam anos de crescimento baixíssimo. Um Japão na década de 1990 no maior bloco econômico global.

– – EUA: o crescimento econômico americano tem surpreendido nos indicadores mais recentes, mas isto é uma ilusão temporária. Os fundamentos mostram que o desemprego continua alto, o endividamento das famílias ainda é preocupante e a chance de retomada rápida do consumo é baixa. Portanto, os mercados estão se animando sobre sinais pouco confiáveis. Se houver uma reversão rápida e sistemática nos indicadores, os analistas podem mudar de lado na mesma velocidade, elevando o temor de recessão e contraindo o crédito em todo o planeta. A economia mundial poderia ver 2008, all over again.

+ China: é o terceiro ponto que precisa se ter em atenção, mas pelo sentido contrário. Enquanto Europa e Estados Unidos podem se tornar vértices negativos na economia global, a China pode contribuir positivamente. Como os economistas do Bradesco pontuaram em seu Boletim Diário Matinal de hoje:

As especulações são crescentes de que a China lançará um novo pacote de estímulos, que poderia chegar a 2 trilhões de yuans, conforme vinculado na imprensa internacional. É fato que o governo chinês, após a frustração com o desempenho de sua economia em abril, mudou o tom da política econômica, ressaltando as medidas favoráveis ao crescimento. A partir de então lançou estímulos para compra de eletrodomésticos e anunciou incentivos para o setor automotivo; além disso, esperamos redução de impostos e ampliação das facilidades para os investimentos privados. Ainda assim, acreditamos que a elevação dos gastos fiscais voltados às obras de infraestrutura será o motor para evitar uma desaceleração mais forte da economia do país, sendo que a política monetária seguirá aliviando de forma gradual.

Estes são os principais pontos a se ter em atenção.

Não, a economia mundial não vai melhorar muito nos próximos meses. Mas dificilmente irá piorar muito.

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BRICS: O desafio de ser mais que uma sigla

Em 2001, o banco Goldman Sachs não tinha ideia da revolução que seu relatório aos investidores causaria. Para simplificar, cunhou a sigla BRICs para apontar economias sobre as quais valia a pena manter a atenção. Brasil, Rússia, Índia e China eram quatro grandes economias, com populações maiúsculas e com dinamismo e força únicos no cenário global.

Onze anos depois, depois da adoção da África do Sul (apoderando-se do “S”), a sigla se tornou uma organização formal, com reuniões periódicas, logo próprio e statements conjuntos. Mais do que nunca, durante e após a cúpula do fim de março, os BRICS conquistaram um espaço gigantesco na mídia internacional. A demonstração de interesse de se fundar um banco de investimento conjunto do grupo, de realizar negociações comerciais e financeiras entre os países nas moedas locais e a postura firme quanto à atual política monetária expansionista de países desenvolvidos mostram grande evolução nesta última década de um grupo que tinha tudo para dar errado.

Some-se a isto um projeto real e já aprovado, da construção do terceiro maior cabo submarino de telecomunicações do planeta, unindo Vladivostok a Miami, passando por Shantou, Cidade do Cabo e Fortaleza. Isto faria com que comunicações entre estes países não precise passar pela Europa, evitando pagamento pelo uso de cabos de outrem e possíveis “grampos”.

Fica clara a disposição de maior interação entre os membros da cúpula. A China já é o maior parceiro comercial do Brasil, e estas conversas podem facilitar negociações e abrir portas para o diálogo de empresários brasileiros com estrangeiros. Quase 20% da economia e 50% da população global se manifestando juntas têm um peso muito expressivo, e o alinhamento dos BRICS pode, de fato, ser muito favorável a seus membros.

Mas não podemos nos iludir. Veja que falei em interação, não em integração. Estes países são EXTREMAMENTE diferentes, em diversos pontos. Estruturas políticas, sociais e econômicas completamente díspares impedem uma integração mais profunda, e em qualquer ponto delicado seus governos devem priorizar suas posturas individuais. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que iniciativas como o comércio em moedas locais e a criação de um banco regional de desenvolvimento já foi assuntado no Mercosul e, mesmo com muito mais pontos em comum, não saiu do papel. Falar é fácil, mas colocar em prática…

Pessoalmente, não sou nem otimista a ponto de achar que os BRICS terão uma união tão próxima quanto à europeia, nem tão distante como a africana, os as tentativas furadas de uma integração americana (não é a toa que ALCA e ALBA ficaram para a história como os projetos que não deram certo).

Acredito sinceramente que os BRICS podem estar redefinindo a forma que as nações interagem no plano internacional. Após o período de grupos e a década de acordos bilaterais, relações multilaterais mais profundas, porém extremamente específicas, podem ser uma nova tendência global, que caracterizem a década de 2010.

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul possuem divergências crônicas (e até mesmo imutáveis), mas convergem em um ponto crucial: estes países querem mais VOZ no plano internacional. Eles querem ser atores protagonistas nos rumos que a economia global tomará, e a pressão sobre instituições multilaterais como a ONU, o FMI e o Banco Mundial são prova disto. Juntos, estes cinco países exercem uma pressão que estadunidenses e europeus jamais esperavam receber de países mais pobres.

O equilíbrio de poderes está mudando, e os BRICS podem estar no centro desta nova dinâmica global.

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