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Vinte centavos que fizeram o Brasil acordar

Seria irresponsabilidade minha deixar passar um tópico tão relevante no cenário social e político brasileiro atual.

Sim, porque o levante contra a administração pública vai muito além dos vinte centavos de incremento na tarifa do transporte público na maior cidade do país. Isso é natural quando se tem inflação em patamares persistente e consideravelmente altos, somados aos ganhos salariais dos profissionais do setor. Ele até foi postergado a pedido do governo central para evitar um pico de inflação no início de ano. Não lembra?

O povo brasileiro acordou. Não acredite na mídia mainstream, ignore os episódios de violência (o quanto puder) e analise com frieza:

O brasileiro trabalha 150 dias por ano para pagar impostos. É isso mesmo: quase cinco meses APENAS para doar para o governo. Estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário aponta que, em 2013, o contribuinte brasileiro destinará 41,08% do seu rendimento bruto para pagar tributos sobre os rendimentos, consumo e patrimônio, entre outros. No ano que passou, a arrecadação tributária total chegou a R$ 1,59 trilhão, equivalente a mais de 36% do PIB nacional.

E o que ganha em troca?

– Ensino público fundamental e médio entre os piores do mundo. Segundo relatório do Fórum Econômico Mundial, o Brasil está na 116a posição (em um ranking com 144 países) em educação. Em matemática e ciências, estamos atrás até mesmo da Etiópia, onde os índices de miséria são assombrosamente superiores aos brasileiros.

– Saúde pública ineficiente em diversas regiões do país. Não há leitos suficientes em diversas cidades, e pacientes são tratados como lixo.

– Falta de segurança/elevados índices de violência; das 50 cidades mais violentas do mundo, 16 estão no Brasil.

– Transporte público insuficiente e de péssima qualidade. Trânsito entre os piores do planeta.

E muito, muito mais estatísticas negativas.

Segundo estudo do UBS, as passagens de ônibus de São Paulo e Rio de Janeiro (cidades em que os protestos contra os aumentos têm sido mais intensos) ainda estão longe do topo da lista. Então se você acha que essa discussão é sobre R$0,20, repense.

A inflação ainda está na memória de muitos brasileiros, e o governo demorou para perceber que o seu sonho de uma noite de verão regado a bolsa família e incremento do consumo via crédito acabou faz tempo. Se o governo não agir rapidamente para consertar as bases da economia brasileira, sofrerá as consequências nas urnas em 2014.

Esqueça a discussão vândalos vs. policiais. Vamos discutir o Brasil do qual queremos nos orgulhar.

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Será possível resolver os problemas da união europeia numa folha A4?

Para primeira crónica no “Economistinha” podia começar logo a falar da enorme crise que afeta atualmente o Continente Europeu, a União Europeia e em especial a Zona Euro!

Mas mais importante que falar das razões da crise, (pelo menos por agora) é a necessidade de compreendermos porque é que a União Europeia e as Instituições que a compõem não conseguem dar uma resposta coordenada e eficaz para promover a mudança deste ciclo recessivo que está a afetar o velho Continente.

 

Como tal vamos tentar perceber como funciona a União Europeia e quais as instituições que a compõem! Como funcionam? Quais os seus poderes? Serão realmente democráticas? E como podia a União Europeia ser, para conseguir dar uma melhor resposta à crise e às apreensões dos povos europeus?

 

Rui Tavares é Eurodeputado independente e explica de forma acessível a todos a encruzilhada de Tratados e “patamares de democracia” que atualmente definem a União Europeia e que faz com que os povos Europeus sintam cada vez mais um distanciamento da Europa. Deixa no fim, é claro, uma sugestão de União Federal e de criação de respostas coletivas para a crise, isto tudo numa folha A4. Sendo que um Europeísta convicto subscrevo as suas palavras!

Rui Tavares (Lisboa, 1972) é historiador, cronista e deputado ao Parlamento Europeu (independente, Verdes/Aliança Verde Europeia), onde trabalha nas áreas de Liberdades e Direitos Civis, Direitos Humanos e Cultura e Educação.

É doutorando na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, onde conclui uma investigação sobre censura no século XVIII. Publicou, entre vários títulos, “O Pequeno Livro do Grande Terramoto” (Tinta-da-China), e traduziu autores setecentistas e oitocentistas. Escreve duas crónicas por semana no jornal “Público”.

Uma excelente intervenção no TedX Cascais em Portugal que vale a pena assistir!

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Desemprego: a Europa em desespero

Os níveis de desemprego na Europa estão consistentemente altos, e não dão sinais de que vão ceder tão cedo. A crise social é profunda. Depois de tantas elevações nos impostos e cortes nos gastos sociais, a aprovação aos governos já é praticamente nula.

A situação é mais grave nos países em que a crise é mais profunda, dando sinais de que a recuperação demorará – e muito – para chegar. Pessoas desempregadas não têm condições sequer de pagar suas contas do passado (e boa parte das famílias dessas nações está drasticamente endividada). Confiram a ilustração abaixo, com dados do Eurostat (organizados pelo português Dinheiro Vivo):

Os chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) têm os níveis mais elevados da região. O minúsculo Chipre, que recentemente balançou a Europa após solicitar resgate, apresenta níveis igualmente elevados – e crescentes.

Nos últimos doze meses, o desemprego passou de 21,5% para 27,2% na Grécia, de 10,7% para 14,2% no Chipre, de 24,1% para 26,7% na Espanha e de 15,1% para 17,5% em Portugal. Quem achava que a situação já estava ruim, se enganou. Ela conseguiu piorar.

Em toda a União Europeia, são 5,7 milhões de jovens desempregados. Veja mais aqui.

Peguemos o caso da Espanha, nação com maior representatividade na economia europeia dos supracitados: além dos assustadores 26,7% da população em geral, não há bons prognósticos para os recém-ingressantes no mercado de trabalho: 55,9% das pessoas com menos de 25 anos não têm trabalho. Isso mesmo: mais da metade.

Para piorar, a duração do desemprego influencia na capacidade de retornar ao trabalho. Veja o gráfico, do The Atlantic:

Alguém vê uma saída para a Espanha?

Eu, infelizmente, não.

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Emissão de dólares e libras aumenta exponencialmente em cinco anos

Desde o estouro da crise do sub-prime, em 2008, os governos dos principais países do mundo têm tomado uma série de medidas para tentar alimentar a economia. Dentre elas, o afrouxamento monetário é uma das mais importantes – e controversas.

Durante muitos anos antes da quebra do banco Lehman Brothers, a base monetária dos EUA apresentava um crescimento praticamente constante e bastante limitado. Desde então, porém, a quantidade de dólares disponíveis disparou. Hoje, a base monetária americana é de pouco mais de US$ 2,7 trilhões, frente US$ 0,8 tri há cinco anos: um crescimento de 230%. No Reino Unido, o crescimento na emissão de libras esterlinas foi ainda mais surpreendente: 362%.

Estas medidas são chamadas de anti-cíclicas, ou seja: os governos agem no sentido de amenizar a crise através do fomento do consumo. Mas para isso, aumentam seu endividamento.

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A inundação de dinheiro nos mercados visa o reaquecimento da economia, segundo a diretriz do “dinheiro na mão é vendaval”. Mas isso tem seus efeitos colaterais: moedas de países emergentes (como o Brasil) tendem a se valorizar, dificultando as exportações; insumos básicos, as chamadas commodities, também podem ter seus preços afetados – elevando o patamar da inflação global. A desigualdade econômica (especialmente em países com a economia debilitada e engessada, como as dos PIIGS) tende a aumentar, dado que esses recursos dificilmente repercutem em maior poder de compra aos mais pobres e endividados.

Essa é a desculpa ideal de governos ineficientes para o mal resultado de suas exportações, mas não se deixe enganar: o Real valorizado é o menor dos problemas do exportador brasileiro. Péssima infraestrutura, encargos astronômicos e baixa produtividade são muito mais danosos à balança comercial do nosso país.

(imagens do blog Achados Econômicos).

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A economia para, e o governo só atrapalha… Brasil, a República das Bananas.

O IBGE divulgou nesta manhã:

O PIB teve variação positiva de 0,2% na comparação com o quarto trimestre de 2011. Indústria (1,7%) e serviços (0,6%) se expandiram, mas a agropecuária caiu 7,3%. O crescimento da indústria foi puxado pela indústria de transformação, que cresceu 1,9%. Construção civil e eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana também registraram crescimento de 1,5% em relação ao trimestre anterior. Já a extrativa mineral recuou 0,5%.
No setor de serviços, as atividades de administração, saúde e educação pública (1,8%), comércio (1,3%) e transporte, armazenagem e correio (0,9%) cresceram. Serviços de informação aumentaram 0,6%, enquanto outros serviços (0,2%) e atividades imobiliárias e aluguel (0,1%) mantiveram-se estáveis. Intermediação financeira e seguros recuou 0,8%.
Sob a ótica do gasto, o consumo da administração pública (1,5%) e o consumo das famílias (1,0%) subiram, enquanto que a formação bruta de capital fixo caiu 1,8%.
No que se refere ao setor externo, as importações de bens e serviços cresceram em ritmo superior ao das exportações: 1,1% contra 0,2%.

Abaixo a imagem bonitinha publicada pela Folha.

Pois bem, vamos analisar. O PIB surpreendeu para baixo devido a uma queda mais forte da Agropecuária. Isto não é importante, porque este setor é volátil e, assim como caiu rapidamente agora, consegue se reerguer com certa facilidade. O clima doido dos primeiros meses do ano (seca no nordeste e no sul, principalmente) derrubou a produtividade do setor.

Vamos olhar o que realmente é importante.

No comparativo com o primeiro trimestre de 2011, enquanto os consumos do governo e das famílias subiram 3,4% e 2,5% respectivamente, o investimento caiu 2,1%. Ou seja, pelo lado da demanda, a economia continua vendendo, mas as empresas reduziram o investimento por menor confiança no futuro.

A indústria cresceu 1,7% no comparativo com o trimestre anterior (na análise dessazonalizada*) e foi o setor mais representativo. No interanual, ela ficou praticamente estável (+0,1%). Porém, olhando pormenorizadamente, notamos que a indústria de transformação caiu 2,6%, enquanto a extrativa mineral subiu 2,2% e a construção civil, 3,3%.

(*dessazonalizado: sem os efeitos sazonais, ou seja, típicos daquele período do ano. Em todo natal o comércio aquece, por exemplo, e é importante tirar estes efeitos – ou seja, dessazonalizar – para evitar análises erradas).

Tanto número pode confundir… Mas vamos analisar.

O governo reduziu o IPI do setor automotivo, mas nada fez pela indústria farmacêutica, por exemplo, que caiu 11,4% em um ano. Como Carlos Sardenberg lembrou ontem no Jornal da Globo, o governo tira imposto de um lado e coloca do outro, e penaliza cada dia mais o contribuinte. Nos primeiros quatro meses deste ano, os gastos do governo subiram 13,1% – enquanto a receita de impostos subiu 12,5%. OU SEJA: além de aumentar a (já criminosamente alta) carga tributária, o aumento nos gastos é tão grande que é preciso aumentar o endividamento.

PIOR: não se tem aumentado o investimento em infra-estrutura. Vendem-se mais carros, mas sem estradas apropriadas. Facilita-se o crédito para o consumo, sendo que as famílias brasileiras já estão atoladas em dívidas.

Simplificando: o governo está governando para ganhar voto, aumentando gastos de forma discriminada mirando o eleitor. Pouco se faz pelo Estado, e as reformas necessárias para dinamizar a economia ficam para escanteio. E sim, acho apropriada a metáfora futebolística, dada que a política do pão e circo corre solta na República das Bananas…

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