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Famosa na internet, Luisa Marilac comenta o mercado de trabalho para travestis e transsexuais

Luisa Marilac ficou famosa em todo o Brasil por seu vídeo caseiro. Em uma piscina e “tomando bons drink”, ela zomba de quem falava mal. O tempo passou, a fama não trouxe os resultados financeiros esperados e Luísa se viu novamente em situação difícil.

Atualmente, Luisa Marilac trabalha como Supervisora de Serviços Gerais em um hotel em São Paulo. Nesta entrevista à Carta Capital, ela comenta a abertura do mercado de trabalho para travestis e transsexuais.

Para quem tem mais interesse, recomendo a leitura do livro “Quem sou eu – Autorrepresentações de travestis no orkut”, de Aline Soares Lima, disponível para download gratuito neste link. Destaco:

Na vida prática de grande parte das travestis e no cotidiano das ruas, o principal palco são as calçadas onde expõem seus corpos como em vitrines para a prostituição. Em trajes sumários e estratégicos, as “bonecas” fazem parte da paisagem noturna dos que trafegam pelas cidades na alta madrugada. Contudo, as imagens da prostituição travesti não são vistas somente por quem transita pelas noites, pois elas chegam também por meio de representações midiáticas e narrativas visuais e orais. (…) Desse modo, a sociedade em geral vai construindo, a partir de representações fragmentadas, um imaginário acerca das travestis, associando-as de um lado aos palcos, à vida artística e ao glamour; e de outro à violência, ao crime e à prostituição. No entanto, a diversão, o prazer e o espetáculo parecem invariavelmente fazer parte de suas vidas.

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Uma Verdade Inconveniente: a Discriminação dentro das empresas

A grande maior parte das grandes empresas brasileiras tenta se mostrar inclusiva e contemporânea. Cresce rapidamente o número de empresas que possibilitam a inserção de parceiros de homossexuais nos planos de saúde corporativos, por exemplo, igualando os direitos destes aos de seus colegas heterossexuais.

Parece bonito, não é? Parece.

Mas a realidade “entre quatro paredes” dos escritórios é desoladora: diariamente ocorrem “piadas” e “brincadeiras” misóginas, contra homossexuais e até contra negros (a despeito da regulação expressa da lei 7716/1999 que torna a discriminação racial/étnica passível de reclusão).

Dou exemplos: em uma roda de amigos e colegas ex-alunos da USP (a maior e melhor universidade pública do país), ao perguntar se as pessoas já haviam sido vítimas de bullying nas empresas em que trabalham, ouvi as seguintes frases:

H – Quando eu trabalhava em um grande banco e minha sexualidade “vazou” para todos, rolou um clima bem chato.

H – Meu trabalho antigo foi o meu primeiro no mundo corporativo, e segui a linha de ficar na minha. Mas sem fingir ser o que não sou. Lógico que no médio prazo, as pessoas vão notando, porque quanto todo mundo faz uma roda pra falar de mulher, você não entra ou fica mudo sorrindo. Depois que eu saí, descobri que várias pessoas comentavam mesmo.

Heteronormatividade para fazer parte do grupo: até quando?

H – Sempre achei mais saudável separar a vida pessoal da profissional. Nunca assumi abertamente, mas também nunca neguei. Aos poucos, conforme fiz amizades no trabalho, algumas pessoas ficaram sabendo.
Não sei se chega a ser bullying, mas já passei por uma situação constrangedora. Estava na [empresa X] fazia poucas semanas quando uma colega mal intencionada perguntou, do nada, em alto e bom som no meio do departamento se eu era gay.

H- Uma vez ouvi de longe umas piadinhas meio homofóbicas da minha chefe e de um colega. Meu instinto foi querer falar algo como “Shuuuush aí, pessoal, vamos trabalhar! Piadinha com gay no ambiente de trabalho não!”, mas não tive coragem na hora. Uma vez uma colega que às vezes fazia perguntas pessoais para os outros perguntou se eu tinha namorada e eu respondi que não, mas eu tinha namorado e não falei nada. Se ela tivesse perguntado “você namora”, eu teria ficado nervoso com a pergunta pessoal, acho que o coração ia acelerar um pouco, talvez eu respondesse que sim, talvez eu ficasse calado, talvez eu mudasse de assunto, mas eu não diria que não. Eu sou bem tranquilo quanto a ser abertamente gay, mas ainda tenho dificuldade na hora de sair do armário. Depois que isso acontece eu relaxo. Nós tínhamos uma colega que era de Campinas, morava lá mas durante a semana estava ficando na casa do cunhado nela na rua Frei Caneca. Ela era completamente desequilibrada e uma vez berrou ao telefone: “EU NÃO AGUENTO MAIS ESSE LUGAR CHEIO DE BICHAS E BOIOLAS.” Na hora acho que eu fiquei tão estarrecido que eu não fiz nada, mas depois contei para a minha chefe e, por esse e por vários outros motivos, a avaliação dessa funcionária foi péssima, mas tudo que aconteceu, até onde fiquei sabendo, é que ela foi transferida para Osasco. Alguns dias atrás eu estava passando pelo corredor e ouvi um colega de outro setor falar alto para os colegas dele: “vou fechar aqui a porta, se não o ar-condicionado bicha!”. Fiquei seriamente desconfiado de que tivesse sido comigo, mas não tenho como saber por enquanto. Vou esperar para ver se percebo mais alguma coisa parecida naquele setor, para ver se não era só coisa da minha cabeça…

H – Trabalho numa empresa TÃO homofóbica que, se eu contar os tipos de piadas/comentários que rolam por lá, vocês achariam que é brincadeira. Nada direcionado a mim, mesmo porque ninguém sabe (e acho que nem desconfia), mas às vezes era tão pesado que eu chegava a sair bem triste de lá (falo no passado porque agora realmente aprendi a “me desligar”). Mas o pessoal lá não é só homofóbico, é cabecinha pequena/quadrada em diversos aspectos. Eu fico na minha e não discuto, porque infelizmente curto muito o trabalho em si (caso contrário já teria ido embora faz tempo). Enfim, acho que posso considerar que sofro bullying indireto?

H – Na auditoria, apesar da política da firma (‘Viva a diversidade”), logo quando eu estava para me desligar, houve uma piada sobre gays direcionada à mim, na minha frente e de toda a equipe. Alguns não entenderam, mas eu saquei. Na semana seguinte, na entrevista d desligamento – ñ sai por isso, tinha conseguido outro emprego – eu contei e o RH me sugeriu o denunciar ao comitê de ética. Acabei não fazendo, e sinto que vingança não teria levado a nada… Hj a auditoria em que eu trabalhava é quem audita a empresa em que trabalho… e eu sabia que isso iria acontecer. Por isso, preferi sair quieto,sem fazer barulho, sem nada.

M – No meu trabalho antigo os colegas que se tornaram amigos sabiam, mas no atual o pessoal é bastante homofobico e com a cabeça fechada, dai finjo que tenho um peguete ao invés de uma namorada :/

Isto te ofende? Pois não deveria.

Peço desculpa pela quantidade de depoimentos, mas eu não me senti à vontade para editar ou censurar os comentários destes colegas. São casos comuns, que acontecem por todo o país o tempo todo. O que se faz? NADA.

Este é um assunto bastante polêmico e que muita gente evita comentar. Especialmente o governo, em seus três poderes, que deveria zelar pela população, mas apenas refletindo a pseudomiopia da sociedade brasileira atual. Porque o mesmo que vou denunciar de dentro das empresas acontece nas igrejas, centros comunitários, escolas, universidades, etc etc. Mas se evita falar a respeito. Finge-se que não se vê.

Por quê?

Em parte, por causa da confusão causada pela maciça presença de representantes de entidades religiosas nas câmaras, como eu já analisei neste post. Mas há muito mais em jogo.

Eu sou contra a PLC 122 por definição, por acreditar que isto fere a liberdade de expressão, primordial em uma democracia plena, mas é assustador o apoio que discursos preconceituosos tem em nossa sociedade. Pior: quem se revolta contra isso até se sente errado, como observamos nos depoimentos.

Na minha humilde opinião, o único remédio é denunciar. Não tem jeito. Infelizmente, quem denuncia está sujeito a retaliações posteriores, e é aí que o Estado deveria interferir, mas não é o que acontece.

Afinal, qual a solução para isto?

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Política e Religião: Uma combinação perigosa e indigesta

Opinar sobre a mistura de política e religião é algo perigoso, pois acirra rivalidades e levanta paixões intensas de todos os lados. Mas é uma discussão fundamental no Brasil atual.

O crescimento das igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais no Brasil desde a década de 1960, mas principalmente após 1990, é rápido. Várias destas igrejas se caracterizam por um forte caráter carismático, com estratégias de marketing agressivas e vocação evangelizadora. Isto aumenta a exposição destas denominações, o que eleva a polêmica a respeito do papel destes missionários na sociedade, além de assegurar mais e mais participantes.

Igreja Universal do Reino de Deus: exemplo de grandiosidade, opulência e poder que arrebanham mais e mais fiéis a cada dia

Discussões quanto às práticas religiosas a parte, pastores, cantores gospel e outros missionários se espalham pela sociedade, e muitos assumem atualmente cargos públicos: desde vereadores, prefeitos, deputados até, recentemente, a nomeação de um ministro pela presidente.

Gosto de deixar muito claro o trecho “discussões quanto às práticas religiosas a parte” porque o Brasil é um país democrático e livre, onde cada um pode afirmar o que bem entender – sem ferir a liberdade alheia, logicamente. Como afirma nossa constituição em seu Artigo 5º, Termo VI:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. (…) É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.

Portanto, se alguém quiser dizer que acredita que os bebês vêm de repolhos, da cegonha ou que o mundo vai acabar quando algum deus voltar à Terra, esta pessoa tem seu direito assegurado. Acredita quem quer. Ponto final.

Mas… como eu falei, a liberdade de um vai até onde começa a do outro. E infelizmente, a chamada “bancada evangélica” costuma se posicionar com frequência contra o mesmo artigo da Constituição Federal que assegura seu direito de falar: o direito à igualdade.

O Brasil é um país desigual. Enquanto alguns tem alguns direitos, outros não os tem. Heterossexuais podem se casar e adotar com relativa facilidade legal, homossexuais enfrentam uma guerra nestes âmbitos; adolescentes educados em escolas particulares com preços salgados têm acesso à educação superior pública gratuita, os menos favorecidos, não necessariamente; e assim por diante.

Vamos combinar uma coisa, galera? Todos têm o direito à igualdade. A uma vida digna. Não importa se você gosta ou não de fulano ou ciclano, se você acha que ele vai para o inferno por seu comportamento. RESPEITE-O COMO VOCÊ DESEJA SER RESPEITADO. E vamos lutar por direitos iguais a todos, não apenas àqueles com quem nos identificamos.

É só isso. Obrigado.

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