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E o Nobel de Economia foi para…

Nesta segunda-feira, a Real Academia Sueca de Ciências anunciou os ganhadores do Prêmio Sveriges Riksbank Prize em Ciências Econômicas, mais conhecido como Nobel de Economia (ainda que não tenha sido institucionalizado por Alfred Nobel. Criador da dinamite, o milionário dedicou sua herança à promoção da ciência mundial.

Os ganhadores foram os economistas dos Estados Unidos Alvin E. Roth, 60, e Lloyd S. Shapley, 89. Eles são professores das universidades de Harvard e da Califórnia, respectivamente.

Segundo os organizadores da premiação, a premiação foi dada por seus esforços na teorização da alocação estável de recursos e a prática de design de mercado. “Este ano o prêmio recompensa um problema econômico central: como associar diferentes agentes da melhor maneira possível”, anunciou o Comitê Nobel.

Da Veja:

Alvin Roth, que estava dormindo quando recebeu a ligação da equipe do prêmio, pois vive na Califórnia, afirmou em entrevista por telefone que ganhar um Nobel era completamente inimaginável. “É um prêmio muito esperado e merecido para o Lloyd Shapley, mas eu não estava esperando”, afirmou o economista. “Nesta manhã, certamente meus alunos prestarão mais atenção às minhas aulas”, brincou.

O prêmio de 1,2 milhão de dólares homenageia Shapley, de 89 anos, que utilizou a teoria dos jogos para comparar vários métodos de combinações e aplicá-los a situações em que a economia, normalmente, não é utilizada, como nas questões médica e educacional. “Este ano o prêmio recompensa um problema econômico central: como associar diferentes agentes da melhor maneira possível”, anunciou o comitê do prêmio.

Roth, de 60 anos, que recentemente mudou-se de Harvard para a Universidade de Stanford, na Califórnia, ampliou os estudos de Shapley e ajudou a redesenhar instituições de ensino, fazendo com que novos médicos pudessem encontrar vagas em hospitais, estudantes achassem vagas em escolas e pacientes encontrassem doadores de órgãos. “O prêmio deste ano é dado a um exemplo incrível de engenharia econômica”, afirmou o comitê de economia do Nobel. “Ele coroa os esforços para encontrar soluções práticas a um problema do mundo real”, afirmou.

Em tempos de crise internacional, a melhor utilização dos recursos e a associação entre os agentes econômicos merece destaque. Portanto, parabéns a Roth e Shapley!

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O que representa o Nobel da Paz para a União Europeia?

Na última sexta-feira, a União Europeia foi honrada com maior e mais significativo prêmio mundial: o Nobel da Paz.

Não é a primeira vez nos tempos recentes que o Comitê Nobel da Noruega causa polêmica: em 2009, o ganhador foi o presidente dos EUA, Barack Obama. Quem não gostou, disse que ele não ganhou pelo que fez, mas pelo que não fez (perpetuar guerras, como seu antecessor George W. Bush).

O caso da UE é bastante diferente: o grupo se aventurou e se comprometeu fortemente ao realizar tamanha união. A crise atual não pode tirar os méritos daquilo que se construiu nos últimos 60 anos: um ambiente de paz e reconciliação, em um continente marcado por guerras e ódio multilateral.

Quem já viveu na Europa sabe do que eu estou falando: o continente é multifacetado, repleto de nacionalismos fortes e diferenças gritantes (até mesmo nos tempos atuais). O projeto União Europeia é merecedor da honraria, e o timing não podia ser melhor: é importante reforçar os valores europeus em tempos de dúvida quanto à importância da união.

Peço licença para repetir na íntegra a coluna de Miriam Leitão n’O Globo. Faço delas as minhas palavras, para reforçar meu argumento:

A Europa é sedutora por ser assim: tão intensa que confunde. A escolha da União Europeia para o Nobel da Paz provocou estranheza e aplausos. Alguns acham que é o momento errado para a premiação, porque a crise acendeu rancores e ameaças. Outros pensam que a crise é hora de lembrar o magnífico no projeto de união, como um seguro contra as guerras que a dilaceraram.

Estou no segundo grupo. Acho magnífico um continente que foi o centro de duas guerras mundiais, em que os dois maiores países se odiavam e onde a guerra fria manteve o ambiente bélico, escolher uma união tão radical.

A União Europeia é uma experiência política única. Todos os países tiveram que abrir mão de parte da soberania nacional, transferir decisões locais para entidades supranacionais, construir consensos a cada etapa para que o projeto comum desse certo.

Hoje, a crise tem realçado o que faltou fazer. Já se tornou mantra afirmar que não foram criadas bases fiscais rígidas aos países que decidiram viver a aventura de ter a mesma moeda. Essa pode ter sido uma das razões da propagação da crise, mas não é a explicação suficiente. Se fosse, a Inglaterra que tem sua própria moeda teria ficado imune a ela.

A desordem atual nasceu de erros de regulação financeira e de excessos de gastos dos países de dentro e de fora do bloco do euro, e até mesmo dos que nem mesmo estão na Europa.

Para não dar valor ao presente da Europa, é preciso desconhecer seu passado. O historiador inglês Tony Judt, no livro “Pós-Guerra, uma história da Europa desde 1945”, lembra que depois da sangrenta Primeira Guerra — em que metade dos homens de 18 a 55 anos da Sérvia morreu, entre outras tragédias — a Europa permaneceu em estado bélico.

“Depois de 1918 não foi restaurada a estabilidade internacional, não foi resgatado o equilíbrio entre as potências: houve apenas um interlúdio decorrente da exaustão. A violência da guerra não se abateu. Em vez disse transformou-se em questões domésticas — em polêmicas nacionalistas, preconceito racial, luta de classes e guerra civil. A Europa nos anos 20 e, especialmente, nos anos 30, entrou numa zona de crepúsculo, entre a pós-vida de uma guerra e a perturbadora expectativa de outra”.

Essa incrível definição de Judt é seguida por outra, em que ele lembra que o pós-guerra se ampliou para os anos e décadas que se seguiram à assinatura da paz, com a guerra fria e outros conflitos. “Depois de 1945 todo o continente viveu durante muitos anos sob o efeito sombrio de ditadores e guerras que pertenciam ao passado recente europeu”. Viveu-se um longo pós-guerra que se encerrou com a queda do Muro de Berlim.

Nessa longa paz armada, e sobre todas as cicatrizes de duas guerras, construiu-se o projeto da União Europeia. No princípio, era o Acordo do Carvão e do Aço, nos anos 50, assinado por cinco países e meio: a Alemanha estava dividida. Hoje são 27 países e 503 milhões de habitantes convivendo com sua diversidade num território que é a metade do Brasil. O que era um acordo comercial parcial virou a mais ampla e profunda experiência econômica e política supranacional. A UE uniu países que se fragmentaram na balcanização que houve após a implosão do mundo comunista.

Sim, a União Europeia está em crise econômica com estados endividados, alto desemprego, impasses políticos e ressentimentos entre os países membros, mas continua sendo a vitória da união e da interdependência sobre os fantasmas da guerra. Cada vez que França e Alemanha se reúnem, mesmo para discordar, é preciso lembrar o ódio que os dois países superaram.

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