Arquivo da tag: países

O que representa o Nobel da Paz para a União Europeia?

Na última sexta-feira, a União Europeia foi honrada com maior e mais significativo prêmio mundial: o Nobel da Paz.

Não é a primeira vez nos tempos recentes que o Comitê Nobel da Noruega causa polêmica: em 2009, o ganhador foi o presidente dos EUA, Barack Obama. Quem não gostou, disse que ele não ganhou pelo que fez, mas pelo que não fez (perpetuar guerras, como seu antecessor George W. Bush).

O caso da UE é bastante diferente: o grupo se aventurou e se comprometeu fortemente ao realizar tamanha união. A crise atual não pode tirar os méritos daquilo que se construiu nos últimos 60 anos: um ambiente de paz e reconciliação, em um continente marcado por guerras e ódio multilateral.

Quem já viveu na Europa sabe do que eu estou falando: o continente é multifacetado, repleto de nacionalismos fortes e diferenças gritantes (até mesmo nos tempos atuais). O projeto União Europeia é merecedor da honraria, e o timing não podia ser melhor: é importante reforçar os valores europeus em tempos de dúvida quanto à importância da união.

Peço licença para repetir na íntegra a coluna de Miriam Leitão n’O Globo. Faço delas as minhas palavras, para reforçar meu argumento:

A Europa é sedutora por ser assim: tão intensa que confunde. A escolha da União Europeia para o Nobel da Paz provocou estranheza e aplausos. Alguns acham que é o momento errado para a premiação, porque a crise acendeu rancores e ameaças. Outros pensam que a crise é hora de lembrar o magnífico no projeto de união, como um seguro contra as guerras que a dilaceraram.

Estou no segundo grupo. Acho magnífico um continente que foi o centro de duas guerras mundiais, em que os dois maiores países se odiavam e onde a guerra fria manteve o ambiente bélico, escolher uma união tão radical.

A União Europeia é uma experiência política única. Todos os países tiveram que abrir mão de parte da soberania nacional, transferir decisões locais para entidades supranacionais, construir consensos a cada etapa para que o projeto comum desse certo.

Hoje, a crise tem realçado o que faltou fazer. Já se tornou mantra afirmar que não foram criadas bases fiscais rígidas aos países que decidiram viver a aventura de ter a mesma moeda. Essa pode ter sido uma das razões da propagação da crise, mas não é a explicação suficiente. Se fosse, a Inglaterra que tem sua própria moeda teria ficado imune a ela.

A desordem atual nasceu de erros de regulação financeira e de excessos de gastos dos países de dentro e de fora do bloco do euro, e até mesmo dos que nem mesmo estão na Europa.

Para não dar valor ao presente da Europa, é preciso desconhecer seu passado. O historiador inglês Tony Judt, no livro “Pós-Guerra, uma história da Europa desde 1945”, lembra que depois da sangrenta Primeira Guerra — em que metade dos homens de 18 a 55 anos da Sérvia morreu, entre outras tragédias — a Europa permaneceu em estado bélico.

“Depois de 1918 não foi restaurada a estabilidade internacional, não foi resgatado o equilíbrio entre as potências: houve apenas um interlúdio decorrente da exaustão. A violência da guerra não se abateu. Em vez disse transformou-se em questões domésticas — em polêmicas nacionalistas, preconceito racial, luta de classes e guerra civil. A Europa nos anos 20 e, especialmente, nos anos 30, entrou numa zona de crepúsculo, entre a pós-vida de uma guerra e a perturbadora expectativa de outra”.

Essa incrível definição de Judt é seguida por outra, em que ele lembra que o pós-guerra se ampliou para os anos e décadas que se seguiram à assinatura da paz, com a guerra fria e outros conflitos. “Depois de 1945 todo o continente viveu durante muitos anos sob o efeito sombrio de ditadores e guerras que pertenciam ao passado recente europeu”. Viveu-se um longo pós-guerra que se encerrou com a queda do Muro de Berlim.

Nessa longa paz armada, e sobre todas as cicatrizes de duas guerras, construiu-se o projeto da União Europeia. No princípio, era o Acordo do Carvão e do Aço, nos anos 50, assinado por cinco países e meio: a Alemanha estava dividida. Hoje são 27 países e 503 milhões de habitantes convivendo com sua diversidade num território que é a metade do Brasil. O que era um acordo comercial parcial virou a mais ampla e profunda experiência econômica e política supranacional. A UE uniu países que se fragmentaram na balcanização que houve após a implosão do mundo comunista.

Sim, a União Europeia está em crise econômica com estados endividados, alto desemprego, impasses políticos e ressentimentos entre os países membros, mas continua sendo a vitória da união e da interdependência sobre os fantasmas da guerra. Cada vez que França e Alemanha se reúnem, mesmo para discordar, é preciso lembrar o ódio que os dois países superaram.

Etiquetado , , , , , , , , , ,

Conheça os países que querem roubar os holofotes dos BRICS: MIST

México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia. Com um ambiente de negócios mais favorável e menos turbulências, estes países tentam roubar os holofotes de seus concorrentes em desenvolvimento, os BRICS.

Dos MIST, a Coreia do Sul se destaca, tanto pelo nível de desenvolvimento quanto com as possibilidades de crescimento futuro

O próprio “criador” de ambas as alcunhas, Jim O’Neill, presidente do Goldman Sachs já não vê os BRICS como países em desenvolvimento, aliás. Para ele, essas economias já emergiram. Da Veja:

Brics e Mist terão juntos um Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 12 trilhões de dólares ao fim desta década em termos reais – dois terços provenientes dos Brics e um terço do total vindo da China. “Os Brics são muito importantes e ainda não se pode compará-los com os MIST”, afirma O’Neill.

Comparações à parte, a expansão econômica de México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia é inegável, enquanto o mundo desenvolvido agoniza em recessão ou estagnação econômica, e muitos emergentes veem seu dinamismo se esvair claramente. “Os países do MIST estão ganhando visibilidade por causa da desaceleração dos Brics. Brasil, Índia e China estão experimentando taxas de crescimento abaixo do previsto neste ano, não apenas devido ao ciclo econômico, mas também porque tomaram medidas que não foram tão bem recebidas pelos mercados”, afirma Christopher Garman, diretor de estratégia de mercados emergentes da Eurasia Group. No caso do Brasil, em particular, ele diz que o investidor está pessimista, sobretudo, com o baixo crescimento – que deve encerrar o ano em 1,75% segundo previsões do mercado financeiro. Contudo, ele lembra que os mesmos investidores avaliam que os esforços da presidente Dilma Rousseff para estimular o PIB – tais como os pacotes que têm sido anunciados e as medidas para ajudar a indústria – mostram uma “luz no fim do túnel”.

 O surgimento de levas de países que dão um salto rumo ao desenvolvimento não é fato isolado na história da economia global. Os Estados Unidos e o Japão, por exemplo, já foram nações emergentes que surpreenderam o mundo com seu vigor. Olhar para além dos Brics pode ser considerado, portanto, algo natural. “Muitos investidores começam a olhar para histórias de crescimento fora dos BRICS, e alguns fundos estão apostando em países do segundo escalão dos emergentes”, conta Garman. “O Mist reúne essencialmente os maiores países depois dos Brics”, completa. Apesar de economistas e investidores falarem dessa seleção de países há dois anos, tal predileção ganhou adeptos nos últimos meses por conta do agravamento da crise financeira europeia e seu impacto nos emergentes dos Brics – com destaque para o vexame brasileiro.

Discordo de O’Neill. É só andar pelas ruas de Moscou, São Paulo, Pequim ou Nova Déli para se notar que eles estão longe de já terem emergido. Estes países ainda são extremamente desiguais e tem inserido famílias na classe média aos milhões. As possibilidades são imensas, e as dimensões desses países os tornam os mais importantes países em desenvolvimento.

Algo é notável: os investidores estão fugindo do mundo desenvolvido. As poucas e distantes possibilidades de recuperação do crescimento nessas nações faz com que se busquem mais alternativas, e os países em desenvolvimento são a única saída. Desses, tenta-se desprender quais são mais seguros, mais prósperos e mais atraentes. E exatamente por isso os MIST ganharam importância.

Mas os BRICS ainda estão muito à frente dos MIST em vários aspectos. Politicamente, a influência do grupo é determinante. Economicamente, nem se fala. Eles (nós) representam quase metade da gente do mundo. Movimentam grande parte do comércio internacional. E ainda crescem mais.

Portanto, caros concidadãos dos BRICS, não precisamos ter medo dessa “neblina”. É só fazer a lição de casa direitinho (facilitar os negócios, diminuir a carga tributária, etc) que ainda seremos a estrela da festa.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , ,