Porque o Brasil não cresce (e não adianta culpar a crise)


Não, não adianta culpar a crise internacional (centrada na Europa).

Enquanto o mundo deve crescer aproximadamente 3,3% neste ano, o Brasil deve crescer menos da metade disso: 1,5%.

Vizinhos como o Chile, o Peru e a Colômbia conseguem crescer mais que o Brasil. Por quê? Porque são mais competitivos.

Para 2013, ainda que os prognósticos sejam um pouco melhores (4% de crescimento, tanto nas previsões do governo quanto do FMI), eles não representam nada mais que uma melhora pontual. O Brasil enfrenta graves problemas de infraestrutura e previsibilidade do ambiente econômico (fundamentais para os investimentos).

Leiam abaixo o texto do colunista Celso Ming, do Estadão, com destaques meus:

Devagar demais

O tempo vai passando e, com ele, a percepção de que nem o tal atraso no câmbio nem os juros altos demais eram o principal problema da economia – como vinham insistindo algumas lideranças dos empresários.

Desde fevereiro, o real foi desvalorizado em cerca de 20% em relação ao dólar e, desde agosto de 2011, os juros básicos (Selic) caíram 4,75 pontos porcentuais. E, no entanto, a produção industrial continua patinando.

Alguns representantes da indústria, como os da Confederação Nacional da Indústria, já parecem ter percebido que o problema não está no câmbio fora do lugar nem nos juros insuportáveis nem na especulação com juros (arbitragem). O único problema realmente decisivo da indústria é sua falta de competitividade, apenas cosmeticamente tratadas por esses expedientes de que lança mão o governo Dilma: redução temporária de impostos, alguma desoneração das folhas de pagamento, subsídios creditícios aos “mais amigos” e, é claro, um dólar um pouco mais caro e os juros alguma coisa reduzidos. Nas atuais condições, a indústria brasileira não tem como enfrentar nem a competição no mercado interno nem no externo.

Não vão longe as propostas que ganharam certa badalação neste ano, como a de arrancar na Organização Mundial do Comércio o reconhecimento de que o câmbio não pode ser usado como arma; e a de aumentar os processos antidumping. O problema principal está aqui dentro e não no jogo desleal (que também existe) da concorrência externa.

Como insistiu desde o fim de 2011 em relação aos resultados do PIB deste ano, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não perde a oportunidade de proclamar melhor desempenho em 2013. “No ano que vem, o PIB crescerá em torno de 4%…”, repetiu na segunda-feira. Tomara que esteja certo.

Mesmo se o ano de 2013 realmente apresentar atividade econômica melhor do que a pífia deste ano (aproximadamente, avanço de 1,5% do PIB), é improvável que possa ser sustentável.

A indústria nacional investe pouco e não parece interessada em mudar de atitude. E os empresários brasileiros se mantêm na defensiva, por quatro razões:

1) porque temem o impacto da crise externa, que corta encomendas e aumenta a agressividade comercial das empresas estrangeiras no mercado brasileiro;

2) porque não veem nenhum grande progresso na derrubada do alto custo Brasil;

3) por sentirem que o governo interfere demais na economia e sempre remexe nas regras do jogo, com prejuízo da previsibilidade;

4) porque não veem disposição do governo em tocar as reformas – principalmente a tributária, a previdenciária, a judiciária e a das antiquadas leis trabalhistas.

O discurso oficial é que as coisas estão melhorando e que, se algo atrapalha, é a crise externa. O que os críticos identificam como desarrumação crescente da economia e desmonte no tripé original, para o governo, é somente “política anticíclica”. Alterações estruturais profundas ocorrem na economia – insiste o governo Dilma – e os resultados não tardarão a vir, “de forma não linear” – como preferem dizer os documentos do Banco Central.

Só que os analistas já começaram a derrubar as projeções de crescimento econômico também em 2013…

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