BRICS: O desafio de ser mais que uma sigla


Em 2001, o banco Goldman Sachs não tinha ideia da revolução que seu relatório aos investidores causaria. Para simplificar, cunhou a sigla BRICs para apontar economias sobre as quais valia a pena manter a atenção. Brasil, Rússia, Índia e China eram quatro grandes economias, com populações maiúsculas e com dinamismo e força únicos no cenário global.

Onze anos depois, depois da adoção da África do Sul (apoderando-se do “S”), a sigla se tornou uma organização formal, com reuniões periódicas, logo próprio e statements conjuntos. Mais do que nunca, durante e após a cúpula do fim de março, os BRICS conquistaram um espaço gigantesco na mídia internacional. A demonstração de interesse de se fundar um banco de investimento conjunto do grupo, de realizar negociações comerciais e financeiras entre os países nas moedas locais e a postura firme quanto à atual política monetária expansionista de países desenvolvidos mostram grande evolução nesta última década de um grupo que tinha tudo para dar errado.

Some-se a isto um projeto real e já aprovado, da construção do terceiro maior cabo submarino de telecomunicações do planeta, unindo Vladivostok a Miami, passando por Shantou, Cidade do Cabo e Fortaleza. Isto faria com que comunicações entre estes países não precise passar pela Europa, evitando pagamento pelo uso de cabos de outrem e possíveis “grampos”.

Fica clara a disposição de maior interação entre os membros da cúpula. A China já é o maior parceiro comercial do Brasil, e estas conversas podem facilitar negociações e abrir portas para o diálogo de empresários brasileiros com estrangeiros. Quase 20% da economia e 50% da população global se manifestando juntas têm um peso muito expressivo, e o alinhamento dos BRICS pode, de fato, ser muito favorável a seus membros.

Mas não podemos nos iludir. Veja que falei em interação, não em integração. Estes países são EXTREMAMENTE diferentes, em diversos pontos. Estruturas políticas, sociais e econômicas completamente díspares impedem uma integração mais profunda, e em qualquer ponto delicado seus governos devem priorizar suas posturas individuais. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que iniciativas como o comércio em moedas locais e a criação de um banco regional de desenvolvimento já foi assuntado no Mercosul e, mesmo com muito mais pontos em comum, não saiu do papel. Falar é fácil, mas colocar em prática…

Pessoalmente, não sou nem otimista a ponto de achar que os BRICS terão uma união tão próxima quanto à europeia, nem tão distante como a africana, os as tentativas furadas de uma integração americana (não é a toa que ALCA e ALBA ficaram para a história como os projetos que não deram certo).

Acredito sinceramente que os BRICS podem estar redefinindo a forma que as nações interagem no plano internacional. Após o período de grupos e a década de acordos bilaterais, relações multilaterais mais profundas, porém extremamente específicas, podem ser uma nova tendência global, que caracterizem a década de 2010.

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul possuem divergências crônicas (e até mesmo imutáveis), mas convergem em um ponto crucial: estes países querem mais VOZ no plano internacional. Eles querem ser atores protagonistas nos rumos que a economia global tomará, e a pressão sobre instituições multilaterais como a ONU, o FMI e o Banco Mundial são prova disto. Juntos, estes cinco países exercem uma pressão que estadunidenses e europeus jamais esperavam receber de países mais pobres.

O equilíbrio de poderes está mudando, e os BRICS podem estar no centro desta nova dinâmica global.

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