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Como o Partido NOVO pode chacoalhar a política brasileira

Ontem, o TSE aprovou o registro do Partido NOVO, o 33o partido de nosso país. Ele usará a legenda 30, e já poderá ter candidatos nas eleições do próximo ano, para prefeitos e vereadores.

Mais um partido?

Sim. 33 partidos é um absurdo. Há tantas legendas no Brasil que a maior parte da população sequer sabe enumerar cinco delas. Quem dirá 33. Fora os partidos “clandestinos”, como a Rede de Marina Silva – que aguardam aprovação.

Mas a chegada do Novo é bem vinda. Por quê?

Porque o novo é um partido defensor do liberalismo, área de pensamento político até então órfã em nosso Estado.

Os dois partidos que dominam a cena política brasileira desde 1994 seguem a linha social-democrata, onde o Estado atua para promover a justiça social em um Estado de Bem Estar Social.

Enquanto o PT possui teor mais estadista, o PSDB migrou à direita com a ascenção de Lula (vale muito a pena ler este texto sobre isto).

Até então, aqueles que não se identificam com a esquerda apenas encontravam voz em membros da Bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala). Mas esse grupo tampouco me representa – eles representam a ala mais retrógrada da nossa população.

Mas no maniqueísmo da nossa política atual, em que quem não está a favor do governo está contra o Brasil e suas instituições, faltavam alternativas.

Agora não falta mais. E exatamente por isso o Novo pode chacoalhar a política nacional.

PP, DEM e PSC – que cresceu consideravalmente nos últimos anos justamente com os descontentes de outras siglas à direita do PT no espectro político brasileiro – são os primeiros que devem se preocupar. O extremismo de parte de seus membros nunca interessou a liberais, tanto economica quanto socialmente.

O Novo também pode roubar muitos votos tanto de PT quanto de PSDB e, com isso, se mostrar uma terceira via possível.

Segundo o website do Novo, seus principais valores são:

– Liberdades Individuais com responsabilidade

– Indivíduo como único gerador de receita

– Todos são iguais perante a lei

– Livre mercado

– Indivíduo como agente de mudanças

– Visão de longo prazo

Com o intuito de separar gestão partidária de cargos políticos, aceitar apenas membros ficha-limpa e limitar o carreirismo político, o Novo pode trazer novos ares ao Brasil. Seus fundadores são empresários, administradores, arquitetos, engenheiros, médicos e empreendedores, “sem vínculos com políticos tradicionais”.

Ideias liberais também vêm em boa hora – com a dificuldade em encontrar uma saída para o rombo fiscal, apenas uma profunda reforma e diminuição da máquina pública são uma saída viável para o país.

O Brasil precisava disto.

Se o Novo demonstrar na prática o que apresentou até agora, eu sem dúvida apoiarei seus candidatos nas próximas eleições. Ideologicamente, sou social-democrata e liberal social. Mas acredito que o Brasil precisa de novos ares. Para isso, nada melhor que um Partido Novo.

Visite o site do Partido Novo!

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Lições que o Brasil deve aprender com o Canadá

Recentemente, morei no Canadá por três meses, percorrendo cidades nas quatro mais famosas províncias do país (British Columbia, no extremo oeste, Alberta, Ontario (onde fica a capital, Ottawa, e a maior cidade do país, Toronto, e Quebec, a província francófona).

Arco-Íris se forma atrás das montanhas em Banff, Alberta

Ao contrário do que muitos pensam (inclusive eu, anteriormente), o Canadá possui grandes diferenças em relação aos Estados Unidos. Os dois países compartilham a maior fronteira do planeta e laços econômicos históricos e extremamente profundos, mas possuem identidades bastante distintas.

Ao mesmo tempo, Canadá e Brasil possuem semelhanças em diversos aspectos. Ambos são países de dimensões continentais, com grandes distâncias entre seus principais pólos, ainda que o Brasil tenha vantagens. Devido aos invernos gelados que atingem todo o país, 90% da população vive a menos 160km (100 milhas) da fronteira com os EUA, de leste a oeste do país. Vancouver fica a quase 3700km de Montreal e a 3360km de Toronto. Para os negócios, um país com grande diversidade de fusos horários pode significar dificuldades, e neste aspecto o Brasil está em uma situação favorável, visto que boa parte da nossa população vive no mesmo fuso horário.

Brasil e Canadá possuem grandes semelhanças também no aspecto étnico e social. Os dois países receberam uma grande quantidade de imigrantes, criando uma diversidade de etnias única. De acordo com o embaixador Afonso Cardoso, do Consulado Geral do Brasil em Toronto, enquanto o Brasil já encontrou uma identidade própria, o Canadá ainda é formado pela multiplicidade, pela pluralidade de culturas e etnias que formam seu povo. Mais da metade da população de Toronto é estrangeira, e pelo menos 43% fazem parte de minorias.

Pride Toronto, um evento com duração de aproximadamente 10 dias que mobiliza toda a cidade em prol da defesa dos direitos LGBT

O respeito à diversidade é uma das principais forças do Canadá, aspecto que o diferencia de outros países com intensa imigração. Assim como o Brasil (através do programa Mais Médicos), o Canadá tem investido na atração de profissionais qualificados. Com uma população de apenas 34 milhões de pessoas, o Canadá entende a importância de buscar em outros mercados profissioanis capazes de gerar riqueza para o país.

Além disso, o Canadá é extremamente preocupado com a formação das próximas gerações, e a educação é uma prioridade:

Cerca de 5 milhões de crianças canadenses receberam educação gratuita durante o ano letivo de 1990-91. Em algumas províncias, as crianças podem entrar no maternal aos quatro anos, antes de começar a escola primária, que é aos seis anos. Geral e fundamental, o currículo da escola primária enfatiza os conhecimentos básicos de língua, matemática, estudos sociais e introdução às artes e ciências.

Algumas províncias oferecem às crianças super-dotadas programas de ensino mais acelerados e enriquecidos. Crianças com um aprendizado mais lento, ou até mesmo limitado, podem ser colocadas em programas, aulas e instituições especializadas. Cada vez mais, entretanto, as crianças limitadas estão sendo integradas ao sistema normal.

Em geral, a escola secundária consiste de duas correntes de ensino. A primeira prepara o aluno para a universidade, a segunda prepara-o para a educação pós-secundária, em colégios comunitários ou instituições de tecnologia, ou ainda para o mercado de trabalho. Há também programas especiais destinados a alunos incapazes de completar os programas regulares.

Na maioria das províncias, as próprias escolas agora estabelecem, conduzem e avaliam os seus exames. Em algumas províncias, entretanto, o estudante precisa passar por uma avaliação de graduação em certas matérias principais a fim de terem acesso ao nível pós-secundário. Assim, a entrada na universidade depende da escolha do curso e das médias escolares – as exigências variam de uma província para outra.

Mas priorizar não significa gastar mais. Em recente post em seu blog, Mansueto Almeida mostra que o Brasil já gasta mais que a média dos países da OECD. Gastar melhor é a resposta:

De acordo com uma consulta que fez Gustavo Ioschpe ao INEP (clique aqui), no Brasil, haviam 5 milhões de trabalhadores na educação em 2010, sendo 2 milhões de professores e 3 milhões de não professores. Ou seja, para cada professor havia 1,5 funcionário. Na OCDE, a relação entre funcionários e professores em seus países-membros é de 0,43. Se nossa relação aqui fosse a mesma de lá, segundo Ioschpe:

“Se o Brasil tivesse a mesma relação professor/funcionário dos países desenvolvidos, haveria 706.000 funcionários públicos no setor, em vez dos 2,4 milhões que temos. Como é difícil imaginar que precisemos de mais funcionários que as bem-sucedidas escolas dos países desenvolvidos, isso faz com que tenhamos 1,7 milhão de pessoas excedentes no sistema educacional”.

O Canadá possui 4 universidades entre as 100 melhores do mundo, e as demais instituições de ensino estão em níveis igualmente elevados. Os investimentos na internacionalização dessas instituições e a dedicação total aos alunos faz com que o ensino canadense seja diferenciado. Acadêmicos são incentivados a realizar pesquisa e inovação, e parcerias com o mercado privado para o desenvolvimento de conhecimento aplicável ao mercado são frequentes.

Assim como o Brasil, o Canadá é rico em recursos naturais. Florestas, agricultura e petróleo são alguns pontos que aproximam os dois países. Para extrair os petróleo não-convencional de suas reservas, o Canadá investiu consideravelmente em tecnologia, e hoje é uma referência global quando se fala em petróleo arenoso ou gás do xisto.

Em 2010, Vancouver recebeu os jogos olímpicos de inverno, e o parque de Whistler é um exemplo a ser seguido pelo Brasil. Mesmo no verão, a região recebe milhares de turistas, atraídos pela infraestrutura e possibilidades de lazer.

Vancouver envolveu suas crianças e promove o desenvolvimento do esporte através da associação 2010 Legacies Now, que trabalha com mais de 2000 organizações para promover o ensino e treinamentos para seus jovens. Os investimentos feitos na cidade, como uma nova infraestrutura de transporte, transformam a vida dos moradores da cidade.

Falando em transporte, o Canadá entendeu que transporte rodoviário é inviável quando se tem dimensões continentais, e investiu em um mix de rodovias, hidrovias, ferrovias e aeroportos modernos para servir às necessidades de sua população e empresas.

Trilhos do trem que liga Toronto a Ottawa e Montreal

O Canadá também é referência quando se fala em negócios. O país foi recentemente eleito entre os cinco melhores do G20 para empreendedores. Incubadoras, fácil acesso a financiamento, vibrante ambiente de negócios e baixos custos para a abertura de uma empresa e com trabalhadores são apenas alguns dos fatores que fazem do Canadá um lugar em que é mais fácil abrir um negócio.

Priorizar os investimentos é outro aspecto fundamental. O Brasil comumente realiza programas voltados à integração nacional, o que é louvável, mas impraticável em estágios iniciais do nosso desenvolvimento. Levar internet de alta velocidade a regiões distantes é interessante, mas garantir rapidez no acesso à internet nos principais centros econômicos deveria ser prioritário. Este é apenas um exemplo, de tantos que poderiam ser enumerados. Associações como a público-privada Greater Toronto Marketing Alliance promovem o desenvolvimento regional e negociam diretamente com governo e empresas para atingir seus objetivos, além de atrair recursos internacionais. Instituições como o SEBRAE já são referências na cooperação entre diferentes players no mercado brasileiro, mas ainda há muito a ser feito.

Essas são apenas algumas das coisas que notei nestes 90 dias em terras canadenses, mas há muito mais em que se espelhar para acelerar o desenvolvimento brasileiro. Já passou da hora do governo aprender a ajudar o país, e não impedi-lo de crescer.

*As imagens que ilustram este post são todas do meu Instagram. Você já me segue?

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Porque o governo não deveria trazer médicos cubanos

Nos últimos dias, uma calorosa discussão tomou conta das redes sociais e, por conseguinte, da grande mídia.

Alvo de protestos, o programa Mais Médicos busca atrair profissionais de outros países

A chegada do primeiro grupo de médicos estrangeiros que atuarão no Brasil sob o programa Mais Médicos provocou protestos diretos de alguns médicos brasileiros, ilustrado por uma marcante imagem no aeroporto de Fortaleza, em que um profissional negro é vaiado por manifestantes.

Em primeiro lugar, acredito que as manifestantes estavam erradas. Aquele homem não deveria ser o alvo de seus protestos, mas os governantes do Brasil. Piores ainda são manifestações preconceituosas como a da jornalista Micheline Borges. Não concordo com o jornalista Reinaldo Azevedo que diz que não há xenofobia no Brasil. Há, sim, infelizmente. Mas essa não é a raiz do problema.

Os médicos cubanos vivem em um regime ditatorial comunista, e seus salários mensais no país de origem são de US$25 a US$41 (menos de R$100). Fora isso, Cuba carece de diversas liberdades individuais. Com o acordo que o governo brasileiro fez com a Organização Panamericana da Saúde (OPAS), os médicos cubanos devem receber de R$2500 a R$4000. Quem não toparia a troca?

Pois bem, assim como países paupérrimos da África e do Caribe, regiões inóspitas do país carecem de médicos e demais profissionais da saúde. São 701 municípios sem um médico sequer, e mais umas centenas com um ou dois profissionais. Trazer profissionais qualificados do exterior é algo que até mesmo países desenvolvidos fazem, como o Canadá e a Austrália, por exemplo.

Mas onde está o problema com os médicos cubanos, você deve estar se perguntando?

Os médicos receberão apenas de 25-40% do dinheiro pago pelo governo brasileiro pela “importação”. O restante vai para o bolso dos irmãos Castro. É isso mesmo.

Do Correio Braziliense:

Para o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, é justo que o povo cubano receba parte destinada ao pagamento dos médicos cubanos, pois, segundo ele, o governo da ilha investiu muito na formação desses profissionais. “Nós entendemos que é justo que o povo cubano, que se sacrificou pela formação desses médicos, tenha também a possibilidade de aferir dos rendimentos que esses médicos vão ter no país. É uma questão entre os médicos e o país”, disse Carvalho.

No acordo, os repasses financeiros serão feitos do Ministério da Saúde para a Opas, da Opas para o governo cubando, que é quem pagará os médicos. Inicialmente nem a Opas e nem o Ministério da Saúde souberam especificar quanto dos R$ 10 mil pagos por médico será repassado para os profissionais, porém, o secretário adjunto de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Fernando Menezes, disse depois que a remuneração ficaria entre R$ 2,5 mil e R$ 4 mil.

Você concorda com os argumentos do ministro quanto à “justiça” no redirecionamento de dinheiro do Estado brasileiro (também conhecido como o SEU dinheiro, dos SEUS impostos)?

Mais além, tente vislumbrar: que motivos um governo teria para abrir mão de 4 mil profissionais da saúde, especialmente em um país tão ou mais pobre quanto o Brasil?

Ao menos no papel, o programa prevê ampliação das vagas de medicina no Brasil e investimentos nas unidades de saúde espalhadas pelo Brasil, mas… será que acontecerá mesmo? Porque até mesmo integrantes do governo admitem que a burocracia impede que a verba que seria destinada a investimentos de fato se transforme em atividades reais.

As condições de trabalho de profissionais da saúde em hospitais públicos no Brasil é calamitosa. De norte a sul do país, as reclamações são similares: falta de equipamentos, medicamentos, profissionais, superlotação, etc etc. Trazer médicos estrangeiros ajuda, é claro, mas não é a solução para o gargalo da saúde no Brasil.

Portanto, por motivos ideológicos, acredito que o programa Mais Médicos deve ser olhado não apenas pela ótica prática, mas também sob a ótica política e diplomática. Ricardo Noblat pensa o contrário, e eu sugiro que vocês também leiam seus argumentos.

Veja abaixo o discurso do Dr. Rogério Bicalho e se informe. O que você acha do programa Mais Médicos?

Senhora Presidente. Após 6 anos de Faculdade de medicina , 2 anos de residência em um Hospital Federal Sucateado, 3 anos de residência em Cirurgia Oncológica no INCa ( onde existem filas enormes de pacientes para operar ) fui para o interior. Aqui chegando resolvi dedicar um dia da semana para operar pacientes com câncer do SUS. Brigando com todos por estrutura, equipamentos para o centro cirúrgico ……… Consegui …….. MAS PAREI….. Estou enviando em anexo o demonstrativo de pagamento . São 10 pacientes operados por um especialista BRASILEIRO . Notem que operei em novembro e dezembro e recebi em maio do ano seguinte . Portanto a senhora quer me culpar pelo caos na saúde , me pagando em média 200 reais por cirurgia de câncer , demorando 5 meses pra pagar . Sem dar condições mínimas , sendo que muitas vezes eu que comprava os fios cirúrgicos . Senhora presidente estou a disposição para voltar , largo minha clínica particular e volto . Mas me paga de forma justa e em dia . Não precisamos de médicos estrangeiros assim como eu existem milhares por aí…. Tá lançado o desafio me paga que volto.

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O que a quase-derrota de Maduro representa para o futuro da Venezuela e suas relações com o Brasil

O caudilhismo está em baixa na América Latina. Ainda bem.

Neste domingo, 14 de abril, a Venezuela manteve no poder o vice-presidente nomeado por Hugo Chavez quando ainda estava vivo e Nicolas Maduro será o presidente do país pelos próximos seis anos.

Mas ao contrário do que se esperava, a vitória não foi fácil. Maduro foi eleito com apenas 50,66% dos votos válidos, uma diferença de menos de 200 mil votos para o segundo colocado, o oposicionista Henrique Capriles, da Mesa de Unidade Democrática.

A campanha foi árdua: e passarinhos falantes, Lula e até Maradona foram usados pelo candidato governista. No fim, o escolhido por Chavez conseguiu seu objetivo e deve manter o estilo de governo de seu antecessor. A “república bolivariana” sempre foi marcada por amplos programas sociais financiados pela receita gerada pelo petróleo. Por outro lado, a ineficiência no país é gigantesca. A inflação é consistentemente uma das mais elevadas do mundo, e 70% dos produtos industrializados consumidos internamente são importados. Por outro lado, a pobreza caiu de 29%, em 1999, para 7%. O analfabetismo também despencou, e o salário mínimo é um dos maiores da região.

A dependência externa venezuelana é boa para o Brasil. Do Ig:

A relação comercial com a Venezuela foi multiplicada por quatro e se tornou amplamente favorável ao Brasil na era Chávez. Entre 1999 e 2012, o volume negociado entre os dois países saltou de US$ 1,5 bilhão para US$ 6 bilhões, com as exportações brasileiras passando de 36%, que tornavam a balança deficitária para o País, para 84% das transações no período, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento (MDIC). Os anos do chavismo também representaram a realização de acordos milionários envolvendo empresas brasileiras – quase sempre com o apoio do BNDES – e o Estado venezuelano.

“A Venezuela se transformou num dos principais parceiros brasileiros em nível mundial, e o Brasil se tornou o terceiro maior parceiro da Venezuela, atrás apenas de Estados Unidos e China, e superando a Colômbia, que historicamente sempre teve uma grande relação comercial com o país”, diz ao iG  Luciano Wexell Severo, ex-assessor do Ministério de Indústrias Básicas e Mineração venezuelano e ex-superintendente da Câmara de Comércio Brasil Venezuela.

A cadeia da proteína, que tinha um peso pequeno em 1999, se tornou um dos principais setores das exportações brasileiras ao país: carnes desossadas de bovinos congeladas, bovinos vivos, carne congelada de galo e galinha e milho corresponderam a um quarto das vendas para a Venezuela em 2012.

“De outro lado, compramos petróleo e derivados. Apenas a Braskem comprou cerca de US$ 400 milhões em 2012 para o pólo petroquímico que possui no Rio Grande do Sul”, diz Severo.  No ano passado, ao todo, coque e naftas para petroquímica corresponderam a 60% das vendas venezuelanas ao Brasil, de acordo com dados do MDIC.

Aviões, metrô e polo graneleiro

Um dos últimos negócios expressivos entre os dois países foi o acordo entre a Embraer e a  Coviasa, para a venda de até 20 aviões à estatal venezuelana de aviação, em 2012. A primeira areonave foi entregue em setembro e, se todas as promessas de compra se confirmarem, o negócio poderá atingir US$ 904 milhões – o equivalente a 18% do total exportado pelo Brasil ao país no ano passado.

Também em 2012, a Odebrecht começou a explorar campos de petróleo no noroeste venezuelano, em parceria com a estatal petroleira PDVSA, e ampliou o contrato com o Metrô de Caracas, para a construção da linha-5.

A Camargo Corrêa, em 2010, venceu um contrato para a construção de uma represa no Rio Tuy. À época, o empreendimento era orçado em US$ 2,2 bilhões. Já a Andrade Gutierrez, em 2008, foi contratada para construir a nova siderurgia nacional e também é responsável pelo novo estaleiro da divisão naval da PDVSA.

A Petrobras, que atua na Venezuela em 2003, aguarda a entrada da PDVSA num negócio feito entre as duas empresas para a construção de uma refinaria em Pernambuco. Para isso, a estatal venezuelana precisa assumir parte do empréstimo tomado pela companhia brasileira junto ao BNDES e pagar uma parcela dos investimentos já feitos.

O que a eleição de Maduro representa?

A princípio, pouca coisa deve mudar. Maduro foi eleito com sua imagem completamente colada à de Chavez, e inclusive por isto não deve mexer na base do governo: programas sociais fortes com base nos petrodólares.

Por outro lado, o sinal amarelo foi claramente aceso: se a situação estivesse tão boa, a vitória não teria sido tão apertada. Logo de cara, Maduro não é tão carismático quanto Chavez era. Além disso, a desmantelação da indústria nacional e a elevada dependência de importações afetam gravemente a população.

Se reformas não forem promovidas, o governo dificilmente resistirá nas próximas eleições. Mas até lá, as empresas brasileiras ainda podem aproveitar a recente entrada da Venezuela no Mercosul.

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Lições que Margaret Tatcher pode dar ao Brasil

A esta altura, todos vocês já devem saber que a “dama de ferro” não está mais entre nós. Margaret Tatcher morreu na manhã desta segunda-feira, dia 8, em decorrência de um derrame cerebral, aos 87 anos. Há mais de dez anos ela tinha a saúde debilitada, fato lembrado no magnífico filme em sua homenagem – que rendeu o terceiro Oscar da carreira de Meryl Streep.

Adeus, Tatcher. Vá em paz.

Tatcher foi uma das primeiras mulheres a liderar seu país, sendo primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990. Era uma política controversa, angariando seguidores apaixonados e inimigos ferozes ao seu estilo de governar e à sua ideologia. Liberal convicta, foi responsável por diversas privatizações. Porém, foi capaz de reduzir drasticamente os índices de inflação.

E na sua visão de mundo reside a grande lição que Tatcher pode deixar para o governo brasileiro. Suas medidas liberais valorizaram a libra esterlina, o que aumentou as importações e a competição em território nacional. No início de seu governo, diversas empresas quebraram – especialmente aquelas que sobreviviam apenas graças ao auxílio governamental. O período de reajuste da economia foi doloroso, com a elevação dos índices de desemprego. Ela guerreou contra as organizações sindicais, que exigiam direitos que deturpavam a livre economia, e assim conseguiu reerguer a economia britânica desde a raiz.

O governo brasileiro resiste a perceber que a nossa economia também precisa de uma reforma. Eleger “empresas líderes” e beneficiá-las é um tiro no pé, e as lições de nossa história – leia-se décadas de 60 e 70 – já deveriam ter sido suficientes. Subsidiar os líderes apenas reduz o incentivo à inovação e à competitividade. No longo prazo, ficamos defasados e menos competitivos que qualquer competidor internacional.

É tempo de mudar. Que a memória de Tatcher nunca se apague.

A seguir, reproduzo as lições de Tatcher para a Europa, segundo o professor de História e Assuntos Internacionais Harold James, publicadas pelo jornal de negócios, de Portugal:

Thatcher quis refazer o Reino Unido, com base nas melhores características do estilo de vida norte-americano: a crença no potencial da iniciativa privada e do empreendedorismo e numa abordagem positiva e confiante perante a vida.

Margaret Thatcher era muito mais respeitada fora do Reino Unido do que no seu próprio país. Nos Estados Unidos, e também na Europa Central, era vista como uma heroína, especialmente no que diz respeito à luta pela liberdade económica e política.

Essa visão de liberdade e dinamismo nunca foi assim tão popular – ou compreendida – junto dos britânicos. E o facto é que os feitos de Thatcher acabaram por ser distorcidos pelos seus próprios erros na forma como lidou com a complexa política de uma Europa em rápida mudança na sequência do colapso do comunismo.

Enquanto primeira-ministra, não foi grandemente apreciada no Reino Unido, sobretudo por más razões. Ao longo da sua vida política, travou uma batalha com duas frentes: contra o socialismo, mas também contra o ‘establisment’. Por vezes, ambas as frentes pareciam fundir-se.

O ‘establisment’ britânico tinha aderido a um pacto enraizado na experiência da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial. Aceitava elevadas taxas tributárias e uma vasta redistribuição de recursos em troca de poder manter os seus peculiares rituais, hierarquias do passado, títulos grandiosos e distinções superiores. O resultado era uma ineficiência generalizada, um aterrador registo de agitação laboral, baixa produtividade e estagnação económica.

Thatcher quis refazer o Reino Unido, com base nas melhores características do estilo de vida norte-americano: a crença no potencial da iniciativa privada e do empreendedorismo e numa abordagem positiva e confiante perante a vida.

Havia um elemento de fortuitidade nas experiências políticas de Thatcher. Ela tinha sido eleita líder do Partido Conservador porque o candidato mais conhecido e mais plausível da ala direita tinha-se excluído a si próprio devido ao seu discurso controverso e irreflectido.

Ela aproveitou-se de forma implacável da sua feminilidade. Enquanto líder da oposição, visitou a faculdade mais antiga e mais conservadora na Universidade de Cambridge para se dirigir à ínfima minoria de académicos adeptos do conservadorismo. A sala, forrada a madeira, era iluminada à noite apenas por velas, dissimuladas por detrás de sombras amarelo-avermelhadas. Ela começou por dizer que a sala parecia mais um ‘night club’ do que uma universidade e foi então que despiu o casaco e o girou por cima da sua cabeça, como se estivesse prestes a começar a fazer ‘striptease’.

Thatcher era bastante intolerante com outras mulheres no meio político e gostava de estar rodeada de homens. Parte do seu modo padrão de funcionamento político dependia do ‘flirt’. As emoções pessoais também faziam parte da sua política externa. Deu-se muito bem com o chanceler alemão Helmut Schmidt, um social democrata, mas não se deu tão bem com o cristão democrata Helmut Kohk. (Na verdade, a óbvia química pessoal entre ela e Schmidt levou a que um membro do ‘staff’ dissesse que se não se tratasse da primeira-ministra britânica e do chanceler alemão, iriam de mãos dadas para o quarto).

Quanto ao outro lado do Reno, Thatcher não gostou nada do pretencioso e aristocrático presidente Valéry Giscard d’Estaing,  mas desenvolveu bons contactos com o socialista – inicialmente bastante radical – François Mitterrand. Acima de tudo, ela tinha uma óptima relação com o charmoso e cortês ex-actor Ronald Reagan, e uma não tão boa relação com o seu patrício conservador George H.W. Bush.

O carácter resistente e sem dissimulações dos seus sentimentos pessoais não devem levar ao pressuposto de que a sua política era inteiramente instintiva. Na sua condução do Reino Unido para o ‘bom senso orçamental’, nunca deixou que uma ideologia de puro mercado minasse os interesses do seu eleitorado-chave.

Havia também uma boa dose de moralidade antiquada. A determinada altura, quando os políticos da Europa Ocidental e o ‘establisment’ britânico das relações externas receavam que o Solidariedade na Polónia pusesse em perigo as relações estáveis com a União Soviética, ela reconheceu, de forma afoita e acertada, que envolver a oposição polaca era uma oportunidade para ali promover a liberdade.

A parte mais importante do seu legado orçamental e económico surgiu logo no início, durante o seu primeiro mandato. Confrontada com uma recessão mundial em inícios da década de 1980, ela insistiu contudo numa rigorosa contenção orçamental. Os economistas académicos sentiram-se ultrajados e foi publicada no ‘The Times’ [que era, então, o jornal do ‘establisment’] uma carta assinada por 364 destacados académicos, que protestavam contra a insensatez da política aparentemente pró-cíclica de Thatcher.

Além disso, a sua bem sucedida liberalização da indústria britânica tornou-se uma inspiração para a Europa Central, que em inícios dos anos de 1990 se debatiam com o legado económico do mecanismos comunista do planeamento central. Mas não só nessa região. O ‘Thatcherismo’ também pareceu ser um modelo plausível para a estabilização política em França em 1983, após dois anos de experiências motivadas pela crise. O sucesso de Jacques Delor como ministro francês das Finanças levou depois à implementação de um processo de aproximação entre a França e a Alemanha.

A nível europeu, a visão britânica da liberalização foi também um ingrediente crucial para o Acto Único Europeu de 1986, que foi decididamente influenciado pela nomeação, por parte de Thatcher, de Lord Cockfield como comissário europeu em representação do Reino Unido. A Comissão Europeia de Jacques Delors levou a questão da concorrência muito a sério como forma de impulsionar o crescimento económico e a prosperidade.

Contudo, logicamente, o Acto Único Europeu exigiu também uma nova abordagem à política monetária a nível europeu. A crença no poder do mercado e da concorrência sustentou assim um novo empurrão rumo à integração europeia, algo em que Thatcher instintivamente não confiou.

Quando Thatcher deixou o poder em 1990, foi em consequência de uma revolta do seu próprio partido, devido às profundas divisões políticas resultantes da integração europeia. De certa forma, ela foi vítima do sucesso das suas próprias políticas enquanto modelo para outros países – e enquanto desafio para a ordem europeia.

Actualmente, é tentador encontrar paralelos entre a primeira mulher chefe de governo britânica e Angela Merkel, a primeira mulher chanceler na Alemanha. Ambas foram bastante ridicularizadas, especialmente por economistas, devido às suas ligações ao que se pode chamar de ideias simples de rectidão orçamental em circunstâncias adversas.

A defesa da disciplina orçamental e da economia de mercado não é uma garantia de sucesso político. No contexto europeu, não só é difícil a nível interno como também conduz inevitavelmente a escolhas difíceis acerca do futuro do processo de integração.

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